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22/07/22 às 12h45 - Atualizado em 22/07/22 às 12h49

“Risco” é uma das joias da Gibiteca TT Catalão

Ascom Secec

30/6/2022

10:40:00

 

A revista “Risco”, de histórias em quadrinhos (HQ), criada por artistas gráficos de Brasília em 1976, está entre as preciosidades que a Gibiteca TT Catalão, recentemente reaberta no Espaço Cultural Renato Russo (ECRR), reformada em mobiliário e enriquecida em acervo. O local, que guarda em seu acervo 23 mil títulos, entre histórias de super-heróis, mangás, gibis infantis e “graphic novels”, realiza evento no sábado (23) sobre a publicação a fim de lembrar que é a casa dos ilustradores brasilienses.

 

“A Gibiteca TT Catalão, um dos maiores acervos de novelas gráficas no Brasil, tem um valor inestimável. Apresenta a história do cartoon e serve de inspiração para as novas gerações interessadas nas diversas manifestações das artes gráficas, incluindo o desenvolvimento de jogos eletrônicos. A missão da Secec é promover este acervo para cada vez mais usuários”, diz o subsecretário do Patrimônio Cultural da Secec, Aquiles Brayner.

 

Arquivo pessoalO evento do também vai montar uma exposição de vinis com capas concebidas por grandes ilustradores brasileiros. Haverá bancas para trocas, compra e venda de gibis raros. Em mesas redondas, várias gerações de ilustradores conversarão com o público sobre o estado da chamada nova arte.

 

“A ideia do evento é reunir as gerações que colaboraram com a ‘Risco’ e a galera que hoje está representando o DF no cenário nacional”, explica a gerente do espaço, Marmenha Rosário.

 

PUBLICACÂO HISTÓRICA

 

“Risco” fez história em sua existência de três números ao colocar o trabalho de ilustradores, cartunistas e chargistas da capital federal no mapa da crítica política e social, enfrentando a censura da ditadura militar (1964-1085). Fez parte de uma década marcada pela atuação da imprensa alternativa no Brasil, na qual despontaram títulos célebres, como “Pasquim” (1969), “Opinião” (1972) e “Movimento” (1975) para ficar entre os mais conhecidos.

 

Um dos fundadores da publicação, o jornalista e ilustrador José Duarte de Mello explica o nome escolhido para a publicação: “’Risco’ tinha duplo sentido. Significava tanto a ideia de traço gráfico como a de perigo que corríamos pelas críticas à ditadura militar, que não admitia ser questionada. A repressão era brutal e não raras vezes fomos censurados.”

 

Jô Oliveira

O ilustrador Jô Oliveira, que havia chegado à capital depois de estudos em design e animação na Hungria, participou dos três números da “Risco” – inclusive assinando a primeira capa da revista, uma crítica ao imperialismo dos Estados Unidos.

 

Ele destaca na publicação a ousadia em conteúdo e linguagem e também o pioneirismo. Reconhece também o amadorismo da empreitada, pois a publicação não tinha recursos financeiros sustentáveis nem sistema de distribuição.

 

Os recursos para colocar a revista na rua acabavam saindo dos bolsos dos próprios participantes e das vendas erráticas feitas nos bares da cidade. A publicação ainda dependia da boa vontade do Sindicato dos Jornalistas do DF, que rodava fiado o material em sua gráfica.

 

Entre os participantes que carregaram o projeto da revista, havia representantes de agremiações de esquerda, anarquistas, libertários, poetas e “gente que simplesmente desejava chutar o balde”, resume o arquiteto e ilustrador Luís Augusto Jungmann Andrade, o Girafa.

 

“Éramos jovens artistas que queriam criar seus próprios espaços, ao lado de nomes já consagrados como Jô Oliveira e o chargista Fernando Lopes, que então trabalhava no ‘Correio Braziliense’”, conta.

 

O pontapé inicial na criação da revista saiu de uma reunião entre Girafa, a ilustradora, escritora e professora Maria Cecília (Ciça) Fittipaldi Vessani e os artistas gráficos Carlos Bravo e Augusto Pontes. “Risco” não tinha um eixo editorial específico. Era a reunião de várias opiniões em linguagem gráfica. “Foi uma ação entre amigos que deu poucos e apetitosos frutos”, diz

Girafa.

 

 

SALÕES

Duarte acredita que a publicação contribuiu para a divulgação de novos ilustradores e quadrinistas e influenciou na criação dos salões de humor que aconteceram em Brasília. Lembra a “Mostra Brasiliense de Humor”, realizada no Serviço Social do Comércio (Sesc), no mesmo ano do lançamento da “Risco”.

 

A jornalista Cora Rónai, companheira de anos de Millôr Fernandes, elogiou na época os artistas participantes da mostra. “Se eu fosse uma conceituada crítica de artes visuais, agora ia gastar um montão de laudas, louvando a qualidade artística do trabalho da moçada”, escreveu em página do Correio Braziliense divulgando o evento.

 

A exposição em Brasília viajou pelo país, pondo os artistas da capital federal em contato com colegas de outros estados. Entre os eventos principais da época, onde chargistas, cartunistas e ilustradores se encontravam, está o Salão Internacional de Humor de Piracicaba, em São Paulo, criado em 1974, que teve a mais recente edição em 2020.

 

GIBITECA

Lima Neto

O doutor em comunicação pela UnB Raimundo Clemente Lima Neto trabalha na Gibiteca TT Catalão, remunerado pela organização da sociedade civil Instituto Janelas da Arte. Ele organiza as numerações frequentemente confusas de revisas que avançam até certo ponto e depois retornam a zero, num desafio para bibliotecários que não estão familiarizados com HQs.

Em sua tese de doutorado sobre HQ na UnB, “Cartografia sem fundamento: a página de quadrinhos como espaço pós-histórico”, Lima Neto pesquisa a hipótese de que história e escrita estão perdendo espaço para registros audiovisuais.

 

Ele não chegou a frequentar a Gibiteca original, criada em 1999 pelo jornalista, poeta e ativista cultural Vanderlei dos Santos Catalão (patrono do espaço). Falecido em 2020, ele havia doado sua coleção de quadrinhos para a Gibiteca na 508 Sul. Contudo, Lima Neto testemunha que a Gibiteca funcionou como ponto de encontro para estudantes e aficionados pelas bandas desenhadas, como diz em francês. E afirma que “Risco” deixou legado.

 

Autor de “Lendas Inventadas”, livro de HQ que compila histórias urbanas de nove cidades do DF, com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), Lima Neto dá como exemplo de influências da “Risco” a revista “Samba”, também disponível na Gibiteca, que reúne hoje artistas gráficos que frequentavam o espaço da 508 Sul na primeira década do início deste século.

Estudioso do tema, Lima Neto identifica na “Risco” o “traço sujo, carregado”, uma característica também presente em ilustrações de outras publicações críticas da época, alusão possível a pichações que deixavam nos muros os protestos sociais reprimidos nos canais de comunicação.

 

CAPAS DE VINIS

O evento de sábado resgata uma amostragem de discos de vinil cujas capas foram criadas por ilustradores. Tem elepês de Paulinho da Viola e Toquinho no traço de Elifas Andreato; Bethânia e Caetano por Mário Bag; Johnny Alf por Jô Oliveira e Mello Menezes; Millôr assinando capa MPB4. Tudo tem apelo visual para ganhar as paredes.

 

Essas preciosidades foram emprestadas à Gibiteca pelo Clube e Museu do Disco de Brasília, fundado por Janete das Graças Sousa em 2014, no Guará.  Casada com o ilustrador José Duarte de Mello, contou com a ajuda dele para fazer a seleção, cabendo a Lima Neto a palavra final sobre o que os usuários da Gibiteca vão ver entre mais de 30 itens.

 

Serviço

Revista Risco – 45 anos

23 de Julho, de 10h às 19h.

Mesa redonda, exposição de arte da Risco, exposição de vinis, feira de colecionadores

Gibiteca TT Catalão

Horário de visitação

Terça à sexta-feira, de 10h às 20h

Sábado de 13h às 19h

Espaço Cultural Renato Russo, 508 Sul  3244-5751

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Ascom/Secec)

E-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br