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19/12/20 às 16h00 - Atualizado em 19/12/20 às 16h51

Opinião//”Por Onde Anda Makunaíma?”

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Texto: Lúcio Flávio. Edição: Guilherme Lobão

 

19/12/2020

16:00:00

 

Publicado há quase 100 anos, em 1928, “Macunaíma” é um clássico da literatura brasileira. Trata-se de uma narrativa intensa, alegórica, de difícil percepção num primeiro momento, debruçando sobre o mito da formação do povo brasileiro, enfim, o Brasil. Tudo isso norteado pelo clássico personagem do imaginário popular idealizado pelo escritor Mário de Andrade (1893 – 1945), um apaixonado pelo folclore e pela cultura do nosso povo. “Nascido do fundo do mato-virgem, filho do medo da noite”, ele seria a síntese do “herói sem nenhum caráter”.

 

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Mas, antes de ser tudo isso, ou seja, ícone literário, filme, tema de peça teatral e até enredo de samba da Portela, nos anos 70, cantado por Clara Nunes, Makunaíma nasceu Deus e homem dos povos indígenas originários da tríplice fronteira formada entre Brasil, Venezuela e Guiana. Essa é a história do formidável documentário “Por Onde Anda Makunaíma?”, do carioca Rodrigo Séllos. Uma produção Canal Curta!, cedido para exibição no 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o filme traz investigação antropológica, histórica e cultural incríveis desse mito indígena que se multiplicou em vários “Macunaímas” Brasil afora.

 

É uma aventura apaixonante sobre nossas raízes e identidade. E ela começa no final do século 19, no extremo norte do País, com a chegada à região, por volta de 1903, do etnologista e explorador alemão Theodor Koch-Grünberg (1872 – 1924). Foi esse desbravador sem rumo quem primeiro resgatou o mito de certo Makunaima/Makunaimã, ao imergir na rica tradição oral dos indígenas locais, por ali há mais de 200 anos. “Eu escrevi esses mitos e lendas em momentos de lazer ao lado da fogueira do acampamento, durante viagens em canoas ou sob as copas das árvores”, deixou registrado em seus diários o alemão.

 

Como na cultura tudo se resume a “herança e transformação”, já dizia o poeta Ferreira Gullar – explicando, certa vez, a influência da arquitetura do franco-suíço, Le Corbusier na obra de Oscar Niemeyer –, as impressões e assimilações do modernista Mário de Andrade diante das pesquisas feitas por, Koch-Grünberg, o levaram a criar, dentro de um processo antropofágico, uma nova persona.

 

“Foi lendo, de fato, o etnógrafo alemão, que me veio a ideia de fazer de Macunaíma um herói, porém ele era apenas um ser no extremo Norte… Minha preocupação rapsódica era um bocado mais do que esses inúteis? Eu copiei o Brasil, ao menos naquela parte que me interessava satirizar o Brasil por meio dele mesmo”, admite Mário, por meio da voz do ator Pascoal da Conceição.

 

Assim, o Macunaíma dos indígenas reinventado por Mário de Andrade deixa as páginas literárias para ser imortalizado no cinema pelas lentes de Joaquim Pedro de Andrade e atuações inesquecíveis de Grande Otelo e Paulo José. “Era gostoso, muito gosto, divertido. Era o verdadeiro cinema aquilo”, recorda um emocionado Paulo José, ostentando sua casaca de general da época das gravações do filme. E uma prova de que tudo na vida, como na cultura, se resume à “herança e transformação”, graças à amizade do pai, o intelectual Rodrigo Mello de Franco, com Mário de Andrade, desde muito cedo Joaquim Pedro estava familiarizado com as estripulias desse herói sem nenhum caráter ou vergonha.

 

“O livro estava restrito, praticamente, ao mundo acadêmico. O filme do Joaquim Pedro tornou a obra mais popular”, constatava o produtor e diretor de fotografia, Luiz Carlos Barreto, o Barretão, no auge de seus 92 anos.

 

Salta aos olhos o belo trabalho realizado entre o roteiro de Juliana Colares e a montagem inteligente e sensível feita pelo diretor Rodrigo Séllos, intercalando de maneira coerente e vibrante, trechos do livro, com imponentes imagens de arquivos, cenas de cinema e teatro, depoimentos poderosos a rica paisagem amazônica, com seus rios a perder de vista, matas de um verde hipnotizante e ingenuidades dos semblantes indígenas. Cada imagem é o retrato de um tempo, cada reinvenção desse personagem, brasileiríssimo, um diálogo entre gerações que reverbera em nossos dias.

 

Sendo assim, mais do que uma interseção de encontros culturais, criações e reinterpretações que esse mito indígena provocou em suas várias vertentes – que incluem ainda as versões de Antunes Filho para o teatro e o filme “Exu-Piá”, de Paulo Veríssimo, vencedor da mostra 16mm do 18º FBCB , “Por Onde Anda Makunaíma?” surge como um tratado cine antropológico sobre o saber e o culto às heranças culturais, sejam elas primitivas ou não.

 

Se ainda ficou alguma dúvida sobre a pergunta do filme? Bem, Macunaíma somos todos nós e ele anda por todos os cantos, seguindo todas as pegadas e trilhas. Seu destino é procurar e desvendar. Talvez estejamos diante da grande surpresa dessa edição do Festival de Brasília.

 

DEBATE

 

Com uma rápida participação do curador e diretor artístico do 53º FBCB, Silvio Tendler, o debate realizado na manhã deste sábado (19) com a equipe do documentário, “Por Onde Anda Makunaíma?”, ocorreu em clima de emoção. “Fiquei encantado com o filme de vocês é um documentário de raiz com pesquisa e emoção”, elogiou Tendler. “Para nós é muito simbólica essa participação no Festival de Brasília, somos duplamente premiados com a seleção e sua presença”, agradeceu o diretor Rodrigo Séllos.

 

Foram dois anos de projeto, que nasceu a partir de outra pesquisa na região também sobre tema indígena e a produção de Roraima, com parcerias de São Paulo e Rio de Janeiro, entrou para história como o primeiro filme da região a participar do Festival de Brasília. “É uma vitória simbólica de uma política afirmativa de descentralização dos centros tradicionais”, comentou o diretor. “Sem ela não estaríamos falando de uma cultura indígena, de rostos e sotaques diferentes, foi lindo estar em Roraima”, destacou.

 

Pernambucana radicada há cinco anos no Rio de Janeiro, a jornalista e roteirista Juliana Colares comentou o processo de criação e pesquisa da história e o desafio de sintetizar a multiplicidade de personagem tão rico. “Essa é a minha primeira experiência com cinema e foram nove meses entre pesquisa e roteiro”, lembrou. “Era sempre um desafio muito grande sobre, exatamente, chegar ao filme que a gente queria contar a partir desse personagem tão múltiplo, que tem várias facetas”, revelou.

 

Mediado pelo jornalista Ulisses Freitas, o encontro contou ainda com a presença do produtor Thiago Briglia.