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17/12/20 às 15h49 - Atualizado em 17/12/20 às 22h15

Opinião//“Longe do Paraíso”

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Texto: Lúcio Flávio. Edição: Guilherme Lobão

 

17/12/2020
15:50:00

 

É a única ficção entre os seis competidores da mostra oficial de longas do 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Uma grande responsabilidade. Sobretudo por trazer tema urgente, necessário. A questão agrária no Brasil é simbolizada em “Longe do Paraíso” por meio de metáfora bíblica: o mito de Caim e Abel, só que de maneira diferente.

 

Outrora campesino, Kim (Ícaro Bittencourt), um jovem que teme a morte mais do que tudo, integra uma organização criminosa que o contrata para matar líderes camponeses. No meio do caminho ele comete um grave erro. A remissão desse tropeço imperdoável acontecerá com a realização de outra missão dolorosa. Uma missão que não apenas vai lhe pesar no ombro, mas mexer com seu emocional, incutindo enorme sentimento de culpa.

 

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Nome de peso do documentário, o veterano Orlando Senna sempre realizou um cinema mutante, mestiço, em que realidade e fantasia se misturam de forma quase orgânica para escancarar os problemas sociais do País. Foi assim em “Iracema – Uma Transa Amazônica”, clássico do gênero do cinema nacional, eternizando, em meados dos anos 70, o triste retrato da região Norte brasileira. O filme, realizado a quatro mãos com o mestre Jorge Bodanzsky, é um marco.

 

“Longe do Paraíso”, no entanto, é uma aposta arriscada. Pode-se dizer que, ao longo de 45 anos de carreira, é o primeiro trabalho do diretor totalmente ficcional. Um desafio encarado de forma pessoal e sóbria por Orlando Senna.

 

Do ponto de vista telúrico, a trama encontra ressonância num drama baiano por muitos esquecidos, “Cascalho”, de Tuna Espinheira, já exibido no Festival de Brasília, por sinal. E por um motivo simples. Ambos compartilham o mesmo verde das matas, a cor negra avermelhada das águas dos rios e lagos, o poderoso céu azul anil desenhado por nuvens incríveis da região da Chapada Diamantina. Eis o cenário desse faroeste social capitado, entre outros takes, num ótimo plano-sequência que nasce com a bela Emanuelle Araújo arando a terra.

 

Um faroeste brasileiro que espelha um Brasil rural em crise há pelo menos três décadas, vítima de promessas e mais promessas de reforma social no campo que nunca saiu do blá, blá, blá. O reflexo desse descaso está na agonizante sobrevivência de pessoas envolvidas na agricultura familiar, posseiros e sem terras. Gente como a valente Bel (Emanuelle Araújo), mãe de três filhos que enfrenta sem medo as injustiças sociais e opressão do sistema para garantir o uso da terra, o direito de cultivar. Agora ela esbarra num perigo invisível, vestido em forma de passado e traição.

 

“A realidade sertaneja me tocou como atriz”, diria ela, no debate realizado com a equipe do filme.

 

A dramatização desses conflitos é apresentada em “Longe do Paraíso” por meio da bela direção de arte assinada por Carol Tanajura e algumas atuações eficientes. Destaque para a presença de Sonia Dias ao encarnar vilã shakespeariana. Uma pena que a caracterização das personagens dos protagonistas, Emanuelle Araújo e Ícaro Bittencourt, apesar do esforço e empenho dos atores, se deixe levar um pouco pelo clichê do gênero, soando, às vezes, falso e nada crível suas atuações.

 


DEBATE

 

Uma das características do novo projeto de Orlando Senna é que, “Longe do Paraíso”, se trata, genuinamente, de um filme de equipe. E foi essa grande turma formada pelas atrizes Emamuelle Araújo e Sonia Dias o montador Luiz Guimarães de Castro, a diretora de arte Carol Tanajura, o músico David Tygel, entre outros, que participaram do debate realizado na manhã dessa quinta-feira pelo YouTube da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF (Secec).

 

“É uma felicidade estar aqui e compartilhar esse momento com meu amigo de muitas lutas, sonhos e ousadias, Orlando Senna. É um filme fantástico, obrigado por engrandecer o festival”, elogiou o diretor artístico do festival, Silvio Tendler. Senna devolveu a loa em tom de brincadeira: “Queria agradecer a existência dessa 53ª edição do festival que quase não aconteceu, mas apareceu nosso Papai Noel das esferas, do cosmo, Silvio, para organizar tudo e nos presentar com mais uma edição do evento”.

 

Sobre o fato de este ano o evento ter mais documentários do que filmes de ficção, na mostra competitiva, tanto Silvio Tendler, quanto Orlando Senna, foram pragmáticos sobre a questão. “É uma tendência mundial, os documentários hoje são protagonistas no cinema”, voltou a dizer o curador da mostra. “Temos que derrubar essas falsas fronteiras, cinema é cinema, filme é filme. Desde menino que o imaginário e o real se confundem em várias circunstâncias da vida, a vida é isso, memória é imaginação”, observa.

 

Orlando Senna ainda aproveitou a oportunidade para reivindicar a volta de um personagem típico da cinematografia brasileira que, segundo ele, tem a marca da nossa cultura. “Os americanos têm o vaqueiro, o cinema japonês o samurai e nós não vemos mais filmes de cangaço”, lamentou. “Um dos meus maiores desejos é realizar um filme de cangaço”, confessou.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF

e-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br