Governo do Distrito Federal
Governo do Distrito Federal
14/12/20 às 14h07 - Atualizado em 27/12/20 às 14h35

O poder feminino no cinema

COMPARTILHAR

 

Texto: Lúcio Flávio/Edição: Guilherme Lobão (Ascom Secec)

 

14/12/2020

14:07:00

 

Em meados dos anos 80 o Brasil passava por profundas mudanças políticas e comportamentais. Após mais de 20 anos de ditadura, os primeiros passos para a redemocratização do País apontava no horizonte e as mulheres ganhavam cada vez mais espaço em vários segmentos da sociedade. O cinema era um dos setores em que a representatividade feminina se fez acontecer. Não apenas mais cineastas estavam em atividade, como mais profissionais de outros ramos da sétima arte cresciam.

 

A primeira mulher diretora a aparecer na ficha técnica do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi em 1968, na 4ª edição do evento. Valquíria Salvá, que dirigiu um dos trabalhos do filme de episódio, “Como Vai, Vai Bem?”. Só em 1985, quase duas décadas depois, que a paulista, Suzana Amaral – falecida em junho deste ano, aos 88 anos -, faria história na mostra, ao ser a primeira mulher a vencer os Candangos de Melhor Filme e Diretora, com o tocante, “A Hora da Estrela”, baseado em obra homônima de Clarice Lispector.

 

Nem ela tinha tanta certeza assim do feito. “Ah, é?! Eu nem sabia que tinha sido a primeira. Em todo caso, obrigado pela lembrança”, responde ela ao saber da informação em entrevista para o documentário “Candango: Memória do Festival”, de Lino Meireles, um dos concorrentes da Mostra Brasília. “Cinema é lazer, sim. Mas num País subdesenvolvido como o nosso, não podemos nos dar ao luxo de usar o dinheiro público para fazer obras que não emocionem, não informem, não empenhem em estimular alguma transformação”, diria ela.

 

Aliás, naquela 18ª edição do FBCB, se realizou amplo encontro e programação paralela, com a Mostra de Mulheres Cineastas, com trabalhos de diretoras como Sandra Werneck, Ana Maria Magalhães, Mariza Leão, Lygia Pape e tantas outras. Uma delas, inclusive, homenageando um dos idealizadores do festival, o intelectual, Paulo Emílio Salles Gomes.

 

MUDANÇA DE CONCEITOS E VALORES

 

Quatro anos depois, em 1989, outra mulher, Lúcia Murat, voltaria a vencer o Prêmio de Melhor Filme na mostra competitiva do encontro, com o drama político “Que Bom Te Ver Viva”. Até hoje a cineasta é grata ao público de Brasília pela emoção da sessão inesquecível que marcou a artista. “Foi muito emocionante. Era o meu primeiro longa-metragem. A sessão foi incrível, com uma participação muito grande de um Cine Brasília lotado”, recorda. “(O prêmio) nos deu outra dimensão do nosso trabalho, foi uma surpresa muito grande, nunca poderia esperar tanto de um primeiro filme”, comenta.

 

Para Lúcia, as mulheres veem se impondo em todos os domínios da esfera pública. “No cinema, muitas curta-metragistas passaram a dirigir longas. Foi um processo em conjunto do movimento feminista, das mulheres lutando por seus espaços e da solidariedade feminina”, avalia a diretora.

 

Outra grande vencedora do Festival de Brasília foi Anna Muylaert, detentora em 2009 de nove Candangos com o drama romântico “É Proibido Fumar”, entre eles o de Melhor Filme e Roteiro. “Foi, sem dúvida, um marco na minha carreira, uma alegria imensa. O que é importante para provar a qualidade do trabalho de todas nós, mulheres”, observa.

 

Crédito: Fellipe MusselCineasta do drama “A Febre”, que abiscoitou, entre outros, os prêmios de Melhor Filme e Direção na última edição do festival brasiliense, Maya Da-Rin acredita que essas transformações que colocam as mulheres no centro do poder são frutos de séculos de lutas. Segundo a artista, ainda há muito a fazer, sobretudo no cinema, com uma série de obstáculos a serem transpostos para que trabalhos sejam realizados, vistos e reconhecidos.

 

“Apesar de todas as conquistas, os filmes realizados por mulheres não chegam a 20% da produção nacional. Ainda hoje, a maior parte dos diretores brasileiros que se destacam e alcançam um reconhecimento maior pelo seu trabalho são homens”, constata. “Filmes realizados por mulheres são descritos como sensíveis e delicados. Isso ainda é muito visível na imprensa e na crítica. Acaba influenciando a cadeia de produção como um todo”, lamenta.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Ascom/Secec)
E-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br