Governo do Distrito Federal
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15/12/21 às 15h16 - Atualizado em 28/12/21 às 13h13

O clamor de uma edição histórica

Texto Lúcio Flávio. Edição: Sérgio Maggio (Ascom/Secec)

15.12.21

15:00:00

 

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Um cinema com a cara do país. Plural, amplo, inclusivo, questionador, lírico e… Urgente! Num ano atípico para a produção cultural, com as garantias de realizações audiovisuais limitadas e, em alguns casos, ameaçadas por conta da Covid-19, projetos fervilharam na 54º Festival do Brasília do Cinema Brasileiro.

 

Os filmes premiados podem ser vistos até 16.12 gratuitamente na plataforma InnSaei.TV.

 

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Programação – 54º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

 

Veja a linha do tempo

A edição 54 – 2021

 

 

E, na casa do cinema brasileiro, venceu a tradição e o experimentalismo, com a consagração de obras inventivas norteadas pela audácia e poesia. Caso do emocionante, “Saudade do Futuro”, de Anna Azevedo, o grande vencedor do FBCB.

 

Conhecido por apostar na ousadia e ser o termômetro político e social do país, o Festival de Brasília deste ano surpreendeu. Há muito tempo que a Mostra Competitiva do evento não contava com safra tão pulsante, empolgante e equilíbrio na qualidade, espelhando de forma marcante a verdadeira face da realidade brasileira nas diversas linguagens, formatos e propostas. É a identidade do festival, sua característica inata reconhecida por participantes, realizadores e, claro, um público bem participante, genuíno.

 

Os dramas vividos na pandemia, o descaso com a questão indígena, tragédias ambientais, o medo do desconhecido, o absurdo da violência contra a mulher, a valorização da cultura popular, a vida na cidade, a busca de afirmação das minorias, o impacto da tecnologia no cotidiano das pessoas, os filhos da periferia, o diálogo com as artes e seus realizadores. Um caleidoscópio de temas diluídos em 28 trabalhos que entrarão para a história do FBCB.

 

“Brasília é um Festival importante na minha formação como cineasta”, comemora Anna Azevedo, diretora do filme. “Receber o Candango de Melhor Filme foi especial, pois o meu objetivo é sempre conseguir conversar com o coração das pessoas”, completa.

 

 

Hugo Lira

Bartolomeu Rodrigues e Erica Lewis

 

“Foram oito dias de ebulição da imagem e ideias. Como disse o nonagenário cineasta Ruy Guerra, num dos vários debates e mesas promovidos pelo encontro: ‘O cinema é um ser vivo'”, comemora o secretário de Cultura e Economia Criativa do DF, Bartolomeu Rodrigues.

 

“A diversidade das temáticas e o nível aprofundado dos debates são inegavelmente os legados desta edição do Festival de Brasília”, emenda a diretora-executiva do FBCB, Érica Lewis.

 

Divulgação

Silvio Tendler

Para um dos curadores do evento, o cineasta Sílvio Tendler, o desafio de manter esse grande boeing, que é o Festival de Brasília, no ar, foi marcante. Segundo ele, apesar da “pandemônia”, como gosta de brincar, referindo-se à pandemia da Covid-19, o cinema venceu.

 

“Foi um festival maravilho, debatemos tudo o que queríamos, teve filmes para todas as tribos, do cinema de andarilho ao webdoc, das tecnologias sofisticadas à linguagem dos povos das quebradas, produções maravilhosas que fizeram o festival acontecer”, avalia.

 

“Conseguimos manter o jumbo voando em plena pandemia. O balanço que faço é extremamente positivo, só faltou o entusiasmo do Cine Brasília, mas tenho certeza que ano que vem o espaço retorna com todo o vigor”, vaticina.

 

Junto com Tendler na curadoria, a professora da Universidade de Brasília, Tânia Montoro, ressalta o caráter inclusivo da mostra, a presença incisiva da produção local e o sucesso dos filmes no formato digital. A ponto de travar a plataforma de exibição, por conta da quantidade enorme de acessos.

 

“Foi uma edição histórica, um festival plural onde mulheres, negros e indígenas estiveram em comissão de seleção, júri, mesas e debates”, avalia.

 

“O cinema de Brasília cresceu estando presente nas mostras competitivas. O ‘errado’ ficou por conta das tecnologias que não funcionaram como deveria porque não deram conta da quantidade de acesso. Viva o Festival de Brasília”, celebra.

 

FÊNIX BRASILEIRA

Nityama MacriniAtualmente, o curador do Festival Internacional de Cinema do Rio e assistente na curadoria das duas edições virtuais realizadas do Festival de Brasília, o jornalista e crítico de cinema, Ricardo Cotta, foi mediador de algumas mesas temáticas na edição do 54º FBCB e acompanhou debates e encontros.

 

Destaca algumas passagens marcantes da mostra este ano. Uma delas, a emoção de ouvir os relatos da vida e obra do cineasta luso-brasileiro, Ruy Guerra, hoje com 90 anos, e da resiliência do audiovisual, sempre renascendo como uma Fênix, em tempos sombrios e difíceis.

 

“Esse festival trouxe questões fundamentais, entre elas a resistência dos cineclubes e dos festivais nesse formato digital, que permitiu que as pessoas se mantivessem unidas em torno do cinema brasileiro”, constata. “Foi uma honra e uma surpresa ter visto tantos filmes do Brasil num momento tão difícil, que eles fossem realizados. O cinema brasileiro é um milagre, quando você pensa que ele está acabado, ressurge”, reflete.

 

Na Mostra Brasília, que recebeu mais de 90 escritos, o perfil dos projetos selecionados valorizou a inserção social e dos diretos humanos a partir temas como miséria, questão racial, justiça, o reconhecimento das minorias e da diversidade que existem no cotidiano desse continente chamado Distrito Federal. Para a produtora e diretora de arte, Maíra Carvalho, que participou do júri que escolheu os filmes que competiram na competição paralela, trata-se de assuntos, infelizmente, pertinente. “Vai de encontro com o momento atual do país”, lamenta.

 

O QUE DIZEM OS VENCEDORES

Direção de fotografia: Cris Lyra

“Alice dos Anjos”

Estreia-solo na direção de longas de Anna Azevedo, “Saudade do Futuro”, rodado em três continentes, Brasil, Portugal e na ilha africana de Cabo Verde, é um híbrido de cinema verdade e poesia visual, com leitura hipnotizante sobre as várias leituras desse sentimento essencial à nossa existência. Uma das coisas mais lindas de ser ver no cinema nos últimos tempos.

 

“O filme é uma troca de impressões sobre o mundo e os sentimentos, sobre o que sentimos mais do que sobre o que vemos ou achamos”, explica Anna Azevedo. “Nada melhor do que refletir sobre esses temas na capital do país que infelizmente vive dias sombrios. Mas há de passar. Viva a arte, a ciência e a educação”, proclama.

 

Dirigido pelo goiano, Daniel Leite Almeida, a fábula, “Alice dos Anjos”, abiscoitou seis prêmios, entre eles o de Direção, Júri Popular, Maquiagem para Claudia Riston e Direção de Arte para Luciana Buarque, conhecida pelos trabalhos com o diretor Luiz Fernando Carvalho “Hoje é Dia de Maria”. Na trama, a alegoria da clássica história do criador de “Alice no País das Maravilhas”, do britânico Lewis Carroll, é transportada de maneira criativa e social para a realidade brasileira, com enredo desenvolvido no sertão baiano.

 

“Ainda estou meio aéreo, a ficha ainda não caiu, mas é a consagração de um filme que foi feito coletivamente, na guerrilha, com muita dedicação e amor, por mãos talentosas”, agradece Daniel Leite. “Recebi retornos incríveis durante a exibição, o filme se conecta com o público, há uma identificação e vencer em Brasília é simbólico por eu ser da região e porque ali é o palco das decisões das questões sociais colocadas em ‘Alice dos Anjos’”, compara.

 

Andréia Beltrão e Eduardo Moscovis, do drama existencialista, “Ela e Eu”, foram sagrados os melhores atores da competição da mostra nacional. No filme de Gustavo Rosa de Moura, eles formam um casal em busca de uma nova vida após um coma que desajustou a rotina de toda uma família.

 

Foto de Sabrina Macedo

Gustavo Rosa

“Um grande reconhecimento esse prêmio, pelo jeito que fizemos esse roteiro, de forma colaborativa com parte do elenco, resultando num filme legal”, resume o diretor, dividindo o Candango de Melhor Roteiro junto com a atriz Andréia Beltrão e Leonardo Levis. “Uma prova de que valeu à pena, uma recompensa por esse processo que pavimenta um caminho a seguir no processo de fazer roteiro para o cinema”, salienta.

 

Revisitando as memórias do sindicalismo brasileiro a partir da relação de operárias de São Bernardo, em 1979, o curta-metragem, “Chão de Fábrica”, foi o vencedor na categoria, arrebatando outros quatro prêmios, incluindo o de melhor Direção, para Nina Kopko, e Melhor Atriz para Joana Castro. A coisa de dias, o filme já tinha vencido o mesmo páreo no festival Cine Ceará.

 

“Ainda estou processando, bastante surpresa e feliz. Honestamente não esperava esses prêmios que significa muito, é um festival que gera muita projeção”, destaca a diretora. “Ganhar esses prêmios me deu uma certeza de concretizar desejo inicial de levar o filme para espaços de discussão sobre mulheres trabalhadoras, direitos trabalhistas”, planeja.

 

Anárquico e surpreendente em sua construção narrativa, “Acaso”, de Luís Jungmann Girafa, é o grande campeão da Mostra Brasília, certame dedicada às produções do DF. O documentário, “Benevolentes”, de Thiago Nunes, venceu na modalidade curta-metragem. O primeiro traz proposta das mais ousadas, com história construída em conjunto com a equipe, valorizando o intenso trabalho de elenco coeso e unido que transita pela avenida mais importante do país, a W3 Sul. A montagem eficiente e sensível do filme, assinada por Joana Salama, foi reconhecida. O segundo, um registro sintomático sobre os vários tipos de racismo no DF.

 

“Quando um filme ganha, o reconhecimento é de toda a equipe. Todos que participaram do filme estão muito felizes. A montagem é uma coisa fundamental nesse filme”, reconhece, Jungmann, o diretor de “Acaso”.

 

“Com 26 anos, sinto-me abençoado por ter sido selecionado e também pelo Candango, estou em êxtase, temos muitos planos, nossa caminhada só começou”, conta Thiago Nunes, que pretende transformar o curta em longa-metragem.

“A diversidade das temáticas e o nível aprofundado dos debates são inegavelmente os legados desta edição do Festival de Brasília”, emenda a diretora-executiva do FBCB, Érica Lewis

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Ascom/Secec)

E-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br