Governo do Distrito Federal
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13/12/20 às 19h34 - Atualizado em 27/12/20 às 14h33

Festival da Resistência: da censura à anistia

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Texto: Lúcio Flávio/Edição: Guilherme Lobão (Ascom Secec)

 

13/12/2020

19:34:00

 

Segundo o mestre Vladimir Carvalho, que entende do assunto, “ficção é o drama da própria realidade social”. A máxima foi sintetizada ao extremo em “Iracema – Uma Transa Amazônica”, marco do cinema brasileiro, que fez história na 13ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB), em 1980. Então censurado, desde a sua finalização, em meados dos anos 70, o longa dirigido pela dupla Jorge Bodanzky e Orlando Senna teria, assim, sua primeira exibição no Brasil para o grande público, após longo período na “marginalidade”.

 

“O filme foi bastante visto em exibição alternativa porque circularam cópias de 16 milímetros nos cineclubes, bastante fortes naquela época. As associações dos jornalistas, os grêmios estudantis, as comunidades de base da igreja, todos eles tinham cines clubes”, lembra hoje Bodanzky, aos 78 anos. “Havia seis anos que ele rodava por aí, de modo que a exibição no Festival de Brasília era quase que uma homenagem”, comenta o diretor, referindo-se ao papel de resistência do projeto, no apagar das luzes dos anos de chumbos da ditadura.

 

Como bem disse Vladimir, diretor de “Conterrâneos Velhos de Guerra” (1991), “Iracema – Uma Transa Amazônica” trazia um retrato do País nada condizente com o Brasil “grande potência” pregado pelos militares. Desnudava a realidade desconhecida de boa parte da população. Uma terra de ninguém, onde a lei do mais forte vigorava, a pobreza era gritante, o desmatamento de árvores milenares uma rotina, e o fogo – junto com um mar de fumaça -, parte da paisagem. “Eles (os militares) achavam que o progresso era um trator derrubando uma árvore”, ironiza Bodanzky.

 

divulgaçãoNuma cena marcante da fita, filmada com as portas de uma Kombi em movimento, as primeiras imagens de uma floresta em chamas, em registro que correu o mundo. “O filme tem dois aspectos. Ele nunca parou. Nesses 45 anos de existência, nunca deixou de ser exibido. E, ultimamente, é até mais procurado ainda”, constata Bodanzky, que além de ser pai da cineasta Laís Bodanzky, tem respeitada carreira como fotógrafo. “Inclusive traz uma triste atualidade. Tudo o que ele mostra continua. Os problemas só aumentaram”, lamenta.

 

Por ironia do destino, desígnios do céu ou meramente uma conjunção de talento e experiência, os dois veteranos do audiovisual brasileiro estão com filmes nessa 53ª edição do evento, que acontece entre os dias 15 e 20 de dezembro, no Canal Brasil e streaming Brasil Play.

 

Orlando Senna com o projeto “Longe do Paraíso”, a única ficção entre os seis filmes selecionados para a mostra oficial de longa-metragem do FBCB. Bodanzky, com o documentário “Utopia e Distopia”, um dos quatro concorrentes na competição Mostra Brasília. No filme, o fotógrafo e cineasta resgata do seu baú imagens em super 8 e fotografias de seu tempo de estudante na UnB, para fazer uma reflexão sobre a instituição de ensino e o Brasil no início dos anos 60.

 

PARCEIRO ALEMÃO

 

A ideia de realizar o filme, no seio da mata amazônica, floresceu em 1968, quando Jorge Bodanzky, na condição de fotógrafo pela respeitada revista “Realidade”, da Editora Abril, viajou pela primeira vez à região. Acompanhava um repórter que faria matéria em Paragominas (PA), às margens da Belém-Brasília. A reportagem não ganharia as páginas da publicação, mas a movimentação naquele posto de gasolina, no meio do nada, era bem intrigante. “De dia era parada de abastecimento, de noite, um prostíbulo”, recorda. “Achei interessante esses mesmos personagens, queria contar a história na estrada, através desse chofer de caminhão e da menininha que se prostitui”, conta.

 

O projeto só foi viabilizado graças a uma parceria com a TV Alemã, onde Bodanzky trabalhava na realização de filmes didáticos. “Demorei alguns anos a convencer um produtor de fazer o filme, os recursos eram bem pequenos”, comenta. “Para ter uma ideia, fomos e voltamos de São Paulo à Transamazônica numa Kombi”, detalha.

 

CENSURA VELADA

divulgaçãoVencidas as barreiras da produção e orçamento, veio a mordaça. Incomodados com a história desse “road movie” para lá de realista – protagonizado por um caminhoneiro ufanista que transportava madeira ilegal (Paulo César Pereio) e uma índia prostituta (Edna de Cássia) -, o drama, atração em festivais no exterior, era rejeitado no próprio País. A desculpa era que o filme, uma produção Brasil/Alemanha, não tinha o registro de Certificado de Produto Brasileiro (CPB) – o que era verdade -, sendo não apenas impedido de exibição nacional, como ignorado de ser censurado, oficialmente, pelo Departamento de Censura do governo. Para resolver o imbróglio, Bodanzky chegou a vir pessoalmente a Brasília, sem sucesso.

 

“A gente não pode nem pegar neste filme porque ele não é brasileiro”, relataria o diretor no livro “Candango – Memórias do Festival Vol. 1”, de Lino Meireles, lembrando a postura do governo. “A censura (…) não permitia a exibição do filme, mas também não tinha nenhum documento que provava que ele tava (sic) censurado”, continua.

 

O impasse seria resolvido, bem à brasileira, em 1980, com o convite e autorização de exibição naquela 13ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB), do qual “Iracema – Uma Transa Amazônica” venceria nas categorias Melhor Filme, Montagem e Atriz para Edna de Cássia, que nunca havia atuado. Era assinada, naquele momento, a carta de anistia da película. “O filme já tinha uma história, então a premiação não alterou a sua carreira em si”, observa Bodanzky. “Mas foi muito importante porque obrigou a censura liberar ‘Iracema’, marcou a presença do filme no Brasil, que até então estava sendo exibido nos circuitos alternativos, clandestinamente”, avalia.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Ascom/Secec)
E-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br