Governo do Distrito Federal
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27/11/20 às 21h36 - Atualizado em 27/11/20 às 23h22

Entrevista/Vladimir Carvalho: o cineasta que é a história do FBCB

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Texto: Alexandre Freire. Edição: Sérgio Maggio (Ascom/Secec)

28.11.20

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Daniel MarquesNão é possível pensar na linha do tempo de 53 anos do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB) sem marcamos a presença de Vladimir Carvalho, que aportou no Festival, em 1967, com o curta “A Bolandeira”. Do filme censurado, em 1971, “O País de São Saruê”, ao orgulho de ver o cinema brasiliense brilhar mundo afora, habita um criador gentil, que colou memórias nessa entrevista exclusiva para a Secretária de Cultura e Economia Criativa, que realiza o 53º FBCB de 15 a 20 de dezembro, no Canal Brasil e streaming Canais Globos.

 

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Viaje pela Linha do Tempo do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

 

Como o FBCB o moldou como documentarista e que papel tem o festival na formação de cineastas?

Foi justamente por conta do Festival de Brasília que aqui aportei em 1969 acompanhando o meu filme “A Bolandeira” (1967), um curta que acabou premiado na mostra. A alegre acolhida do festival, e a simpatia dos circunstantes me levaram a aceitar um convite da UnB para aqui estruturar com Fernando Duarte, mestre da fotografia no cinema brasileiro, um núcleo de filmes documentários. Voltei do Rio, onde vivia e trabalhava, e semanas depois, com armas e bagagens voltei.

 

Foi seduzido pela capital e ficou?

Em vez de ficar mesmo os dois meses de um contrato inicial, me vi repentinamente transformado em professor de cinema, e isto já faz meio século. Brasília, o cerrado e a política me marcaram fundo e os elegi como minha temática em todos esses anos, com ocasionais escapulidas ao Nordeste para filmar, por que ali está meu núcleo ancestral e inevitável.

 

 

E a importância do FBCB pra Brasília?

O Festival serviu e serve para o estímulo e a projeção de talentos locais, a maior parte formada nos bancos da UnB, nascedouro da própria mostra ainda no início dos anos 1960.  Agora mesmo, no espaço de um mês, a última safra do cinema brasiliense arrebanhou uma penca de troféus e prêmios em festivais internacionais, de Nova York a Miami, de Barcelona a Gramado, de Trindad e Tobago ao Canadá, do Mercosul ao É Tudo Verdade, de São Paulo. Um prodígio que contempla a qualidade técnica e artística de nossos filmes, que assim fazem jus ao apoio que vem dos poderes públicos, como o FAC da Secretaria de Cultura e da Ancine. Pena que o governo federal teime em ignorar a cultura brasileira que vem sendo o alvo predileto de seus desatinos.

 

Qual a opinião sobre a edição 53 do FBCB, sem a presença da plateia sempre coadjuvante do Festival?

Penso que foi acertadíssimo o gesto do Secretário Bartolomeu Rodrigues de realizar o festival com recursos próprios e exclusivos da Secretaria [de Cultura e Economia Criativa], numa reviravolta da prática de anos a fio. Condicionado pelas circunstâncias atuais de isolamento social, optou-se por esse formato [Canal Brasil e streaming Canais Globo] e não podia ser de outro modo. Isso inclusive amplia o alcance das exibições. Todos esperamos e ansiamos pela sua realização, que, temos certeza, estará à altura da importância, tradição e prestígio junto ao público, como ao conjunto do cinema brasileiro.

 

 

Em 1971, seu longa-metragem “O País de São Saruê” foi retirado da lista de filmes programados para o FBCB pela censura federal. Qual sua visão sobre o festival como lugar de resistência?

A proibição e interdição de “O País de São Saruê” foi de uma brutalidade e injustiça que naquele momento só me trouxe prejuízo e sofrimento. Mas o Festival que o trouxe de volta das prateleiras da Censura Federal, dez anos depois, em 1979, só me trouxe alegria. Ali, o filme conquistou o Candango como o prêmio Especial do Júri,

 

O momento que atravessamos guarda algum paralelo com a época da ditadura?

Hoje, vivemos um cenário diferente, com o estado de direito democrático. Entretanto são tantas as restrições e prejuízos que esse governo federal nos tem acarretado que, ao fim e ao cabo, é como se vivêssemos novamente sob um regime de força. E o Festival de Brasília, que foi um baluarte da luta contra a repressão e a ditadura naquela época, hoje também paga o seu preço, dado o clima que sufoca e desidrata a cultura brasileira.

 

De tudo que viu ao longo dessas 52 edições já realizadas, que momentos destacaria como mais marcantes?

Destacaria o fato de que, por se situar na capital da República, com acesso aos recintos da representação política do país, como os do Congresso Nacional, Ministérios e mesmo a Presidência [da República], o Festival de Brasília exerce importante lugar de dar voz às reivindicações do cinema nacional. Quantas vezes saímos em caravana diretamente do Hotel Nacional, então sede da mostra, para encontros com ministros e até com o presidente da República, conquistando, em várias ocasiões, decisões que muito influenciaram no crescimento do nosso audiovisual? Sem falar no apoio logístico que oferecemos como representantes aqui das associações de classe, sobretudo as do Rio e São Paulo, por serem as praças mais importantes do movimento cinematográfico.

 

Qual outro momento em que o Festival mais o emocionou?

Muito me alegrou a acolhida calorosa que obtive como outro filme, o “Conterrâneos Velhos de Guerra” [sobre o massacre de operários no acampamento da Pacheco Fernandes em 1959], contemplado com prêmio de melhor filme em sua categoria em 1990, tendo na plateia ninguém menos do que Fernando Solanas, ícone do cinema argentino, de quem ganhei afetuoso abraço.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Ascom/Secec)

E-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br