Governo do Distrito Federal
Governo do Distrito Federal
11/12/21 às 12h14 - Atualizado em 12/12/21 às 11h10

Opinião/Curtas de um país urgente

Texto Lúcio Flávio. Edição: Sérgio Maggio (Ascom/Secec)

12.12.21

11:00:00

 

Ouça o resumo da notícia

 

Um Brasil plural e urgente tem brilhado nas telas virtuais do 54º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, refletindo uma triste realidade social marcada por contradições, injustiças, desigualdades e milhares de personagens às margens da sociedade. Apesar do sopro do dragão da maldade da pandemia ter assolado o país e limitado várias atividades profissionais, o cinema, tal qual um cavaleiro valente, sobreviveu às agruras vigentes, trazendo à tona uma safra de filmes que dialogam com os sinais dos tempos em que vivemos.

 

Os filmes podem ser vistos gratuitamente na plataforma InnSaei.TV.

 

Acesse

Programação – 54º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

 

Veja a linha do tempo

A edição 54 – 2021

 

“Tenho medo de sair daqui e não ter certeza se peguei Covid-19, mas estamos, vivo, o bom da vida é viver”, comenta um dos coveiros do curta paranaense, “Deus me Livre”, realizado pela, dupla, Carlos Henrique de Oliveira e Luís Ansorena. “Interessante é que, agora, com a Covid-19, nós não somos mais invisíveis”, reflete outro, diante de milhares de covas abertas.

 

Em “Ocupagem”, filme de abertura da mostra competitiva de curtas-metragens do 54º FBCB, o mestre do cinema de poesia Joel Pizzini faz uma aposta narrativa simples e objetiva para refletir sobre a questão da ocupação da moradia nos grandes centros urbanos, no caso, aqui, São Paulo. São os reflexos da desigualdade social resumida na frase de um militante: “Nossa ordem é a desordem do sistema”, protesta. “Quem não luta está morto”, continua.

 

 

O fantasma da pandemia também norteia o ótimo drama, amazonense, “Terra Nova”, de Diego Bauer. Na trama, duas irmãs lutam por um lugar ao sol na esperança de conseguir emprego ou um auxílio assistencial em meio à crise sanitária que castigou a capital Manaus.

 

Questões seculares como burocracia, o desprezo dentro da própria cultura e a opressão do sistema são alguns dos temas abordados do curta. “O filme foi rodado após todo mundo realmente ficar sem nenhuma condição, então tratar desse tema na atual circunstância foi diferente, foi um desafio”, conta Bauer, que gerou mais de 60 empregos diretos e indiretos.

 

Divertido, mas não menos incisivo, “Chão de Fábrica”, debruça-se num leve exercício metalinguístico para homenagear as poucas mulheres que ganharam vozes nas icônicas greves do ABC paulista, em 1979. O diálogo é com o Cinema Novo, por meio da leitura social dos filmes do cineasta, Leon Hirszman, a exemplo dos clássicos, “Eles Não Usam Black-Tie” (1981) e “ABC da Greve” (1990).

 

“Ele tem uma voz forte, né? Será que é bonito”, provoca uma das operárias, acenando direto do passado para o futuro, a um dos líderes símbolos da luta de classe no país no final dos anos 1970.

 

 

A construção de afeto entre opostos, o respeito às diferenças e a convivência com estranhos num ambiente de conflitos são as diretrizes dos curtas, “Adão, Eva e o Fruto Proibido” e “Respirar Fora D’água”. O primeiro, rodado na Paraíba, reconstrói a difícil relação entre uma mãe travesti e seu filho de 15 anos. Trata-se de proposta corajosa e exemplar numa sociedade ainda marcada por muito preconceito e falta de respeito às minorias.

 

“Posso não ser o pai que você queria, mas vou ser sua melhor mãe”, decreta a protagonista. Já o título de, “Respirar Fora D’água”, da dupla Júlia Fávero e Victoria Negreiros surge como metáfora para o fantasma do racismo na relação oprimida entre um pai policial e sua filha homossexual. “Você não é a única injustiçada”, frase que surge durante calorosa discussão, denunciando feridas sociais.

 

 

Feridas sociais essas também presentes no impactante, “Filhos da Periferia”, de Arthur Gonzaga, um dos representantes do DF na mostra competitiva nacional de curtas-metragens, rodado em Ceilândia. Traça radiografia asfixiante daqueles que moram longe do centro do poder e das decisões da capital. Pessoas de bem sufocadas por uma realidade de opressão, medo e violência, conduzindo dois amigos de infância para um final forte, bíblico, até.

 

Ficção com jeitão de documentário, “Cantareira”, de Rodrigo Ribeyro, explora a relação entre homem e natureza, metrópole e qualidade de vida, no reencontro afetivo entre avô e seu neto, lá pelos lados de famosa serra paulista que dá titulo ao curta. É a apologia ao mito pregado pelo escritor norte-americano, Henry D. Thoreau, no clássico, “A Vida nos Bosques”.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Ascom/Secec)

E-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br