Governo do Distrito Federal
Governo do Distrito Federal
20/10/21 às 12h26 - Atualizado em 26/10/21 às 13h08

Curadores traçam o DNA da edição 2021 do FBCB

COMPARTILHAR

Texto: Alexandre Freire / Edição: Sérgio Maggio (Ascom Secec)

20/10/2021                                              

14:15:22

 

Ouça o resumo da notícia

 

 

Se depender dos curadores da 54ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB) – o cineasta Sílvio Tendler e a pós-doutora Tânia Montoro – a história da crítica, o debate e a exibição de filmes que não se submetem ao poder vigente vão ganhar novo e vibrante capítulo na primeira quinzena de dezembro (de 7 a 14), quando será realizado em canal fechado e no formato on-line do mais tradicional evento do gênero no Brasil.

 

Com aporte de R$ 2 milhões, a edição de 2021 do FBCB é uma realização da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal (Secec) em parceria com a organização da sociedade civil Amigos do Futuro, selecionada por meio de edital público. As premiações são de R$ 30 mil (longas da Mostra Competitiva Nacional), R$ 10 mil (curtas da Mostra Competitiva Nacional), R$ 15 mil (longas da Mostra Brasília de Cinema Candango) e R$ 5 mil (curtas para Mostra Brasília).

 

Para entender as linhas curatoriais da edição de 2021, os dois curadores contam as expectativas e caminhos que o FBCB traça para a edição 54, que habilitou 151 filmes para a mostra competitiva nacional de longas e 743 para a competição nacional de curtas. A Mostra Brasília teve 17 longas e 74 curtas.

 

“O eixo deste festival é a discussão sobre o futuro do cinema e o cinema do futuro. O que vai sobrar dele depois da pandemia? Como vai ficar o cinema de entretenimento, nos shopping centers, que expulsaram os filmes de arte de lá? Não é em salas com público pela metade que vão financiar os blockbusters americanos. Haverá um renascimento? Todas essas questões nós estamos trazendo para dentro do Festival”, aponta Tendler.

 

“Essa edição do festival será um ato de resistência do cinema brasileiro, uma vez que estamos vivendo uma pandemia com tantas mortes e perdas e um desmonte do sistema de fomento e preservação do audiovisual”, completa Tânia Montoro.

 

SILVIO TENDLER/ “Ninguém cala o cinema”

Foto: arquivo pessoal

Carioca com mais de 80 direções entre longas, médias, curtas e séries, Silvio Tendler é conhecido como “o cineasta dos sonhos interrompidos” por documentários como “Os Anos JK, Uma Trajetória Política” (1980), “Jango” (1984), “Milton Santos, Pensador do Brasil” (2001).

 

Tendler, que já morou na capital da República, conhece bem o DNA que perpassa a cidade com o segundo mais antigo curso de cinema do país (na UnB, o primeiro foi na USP), a “Catedral da Sétima Arte” (Cine Brasília, traçado por Niemeyer) e o público que faz da vaia uma candidata permanente ao Candango (troféu belo e prestigioso) de melhor coadjuvante.

 

“A gente vai ter discussão com todo mundo, desde os grandes empreendedores de televisão – Netflix, Amazon e outros – até os representantes do cinema das quebradas, do cinema popular, da memória, da linguagem”, revela.

 

No cardápio, uma série de homenagens: a Vincent Carelli (antropólogo, indigenista e documentarista franco-brasileiro), que ensinou os indígenas a filmar; Leila Diniz, ícone de mulher muito à frente da própria época nas ideias e nos costumes, cuja morte completará cinquenta anos em 2022; o diretor Ruy Guerra, talvez o mais longevo cineasta do Cinema Novo; a atriz Léa Garcia, 88 anos, melhor interpretação feminina no Festival de Cannes em 1957 no filme “Orfeu Negro” (Marcel Camus), Oscar de melhor longa estrangeiro e a documentarista nascida em Belo Horizonte Tânia Quaresma, recém-falecida.

 

Sílvio Tendler não se intimida com os tempos avessos ao que arte faz de melhor, ao, nos dizeres de Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, denunciar a esclerose da cultura:

 

“Fiz cinema político em pleno AI-5 (ato da ditadura militar que censurou as artes e reprimiu os críticos do regime). Nunca me acovardei. Nessa época, foram feitos grandes filmes brasileiros. Tentavam impedir. Dia 4 de novembro, vai ser lançado “Marighella” (Wagner Moura). Ana Maria Magalhães está aí com Leila Diniz, eu lancei a “Bolsa ou a Vida”. Ninguém nos cala, ninguém cala o cinema”.

 

TÂNIA MONTORO/ “Menos mercado e mais afeto”

Frequentadora de tantas edições do FBCB, a professora Tânia Montoro tem a expectativa de que “os filmes possam narrar boas histórias, convocando o papel do cinema para mobilizar a diversidade social, cultural e sexual, nos tornando mais humanos e humanistas”.

 

Com sete livros publicados, uma centena de artigos com outros colaboradores,  dezenas de orientações de trabalhos de mestrado, doutorado e pós-doutorado, Tânia se arrisca a traçar um roteiro para o cinema brasileiro que é digno de indicação para um Candango:

 

“Menos mercado e mais afeto, menos ódio e mais inclusão. Os eixos que balizam a curadoria neste ano concentram-se na memória do cinema para pensar o cinema do futuro e o futuro do cinema”.

 

Montoro acredita que a curadoria vai mostrar “uma Brasília futurista, pensando o futuro das formas de produção, distribuição, recepção e contemplação da arte cinematográfica em toda sua cadeia produtiva e expressiva”.

 

Ela lembra que a UnB e o FBCB “têm um matrimônio fecundo porque o Festival nasceu na UnB, foi alimentado por seus alunos e mestres, e a capital federal tem a plateia mais viva da sétima arte”. Frisa que “a UnB não se conforma, mas inventa, cria a forma. Nossa participação no Festival é orgânica, afetiva e amorosa”.

 

A pesquisadora ressalta que o cinema é cada vez mais utilizado em sala de aula, em pesquisas de mestrado e doutorado e como suporte de todo processo de ensino/aprendizagem. Em razão disso, defende um encontro da UnB com as demais instituições de ensino do DF na área de audiovisual para pensar como a comunidade universitária pode potencializar a qualidade da educação, usando o cinema na formação.

 

Duas locomotivas na capacidade de puxar a cadeia produtiva do cinema, Tânia diz que “a parceria com o diretor Silvio Tendler tem sido muito produtiva. Somos amigos há mais de 20 anos, já tive alunos que estagiaram com ele. Comungamos do interesse pelo novo, pelo futuro da arte, pelo apreço ao cineclubismo”.

 

Para Tânia, o convite para ser curadora coroa um trabalho de muitas décadas dedicados ao Festival. Ela já coordenou seminários históricos, como o cinema nacional pensado no estrangeiro, em que trouxe especialistas em cinema brasileiro da Inglaterra, Itália, Espanha; organizou discussão sobre a relação entre cinema e música; sobre memórias afetivas evocadas pela tela. “Enfim, tenho familiaridade com o ofício que desenvolvo agora como curadora, me formei e trabalhei para isso. Entro como professora e eterna aprendiz”.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Ascom/Secec)

E-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br