Governo do Distrito Federal
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23/04/20 às 16h48 - Atualizado em 24/04/20 às 12h21

Cine Brasília comemora 60 anos com discussão sobre a importância da década 2001-2010 para o audiovisual no país

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Espaço foi inaugurado em 22 de abril; confira lista de filmes selecionados como presente de aniversário para o público

 

Inaugurado em 22 de abril de 1960, um dia após a transferência da capital do Brasil do Rio de Janeiro para Brasília, o Cine Brasília continua sendo uma das principais referências do audiovisual no país. Pensando nisso, a coordenação do Audiovisual da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, que rege o espaço iniciou um diálogo com produtores do setor a fim de selecionar títulos que mostram a força do cinema nacional a partir de recortes temporais.

 

“Desta vez selecionamos filmes da primeira década de 2000”, explica o gerente e programador do Cine Brasília, Rodrigo Torres. Ele afirma que o período “foi marcado por um reflorescimento da cadeia produtiva, com um grande pluralismo de estilos e gêneros e nas narrativas audiovisuais. Merece também destaque a revolução tecnológica trazida pela digitalização das imagens, que viabiliza diversos projetos de baixo orçamento”.

 

Torres lembra ainda a estruturação institucional dos modelos de financiamento e regulação da atividade cinematográfica que permitiu tudo isso, a partir da criação da Agência Nacional do Cinema (Ancine, 2001), da prorrogação da vigência da Lei do Audiovisual e da criação do Fundo Setorial do Audiovisual entre outros avanços.

 

O gestor acredita que, do ponto de vista tecnológico, a década de 2000 assiste ao contraste entre a captação em película fotográfica de 35mm, em seu início, e a drástica mudança a partir de 2005 com o lançamento da digital Canon 5D.

 

“Esse equipamento conquistou o mercado por incorporar em um único aparelho uma câmera fotográfica digital profissional e um dispositivo capaz de capturar imagens de vídeo em alta resolução, tudo isso por um preço acessível para o pequeno produtor”, lembra ele.

 

O pesquisador do cinema negro LGBT Bruno Victor acredita que, apesar das mudanças nas tecnologias de captação e das políticas públicas do audiovisual brasileiro, “pouco se alterou a perspectiva hegemônica de quem detém as narrativas do cinema nacional”.

 

O diretor brasilense Gustavo Galvão (“Ainda Temos a Imensidão da Noite”, 2019) acredita que experimentação estética e conteúdo crítico sempre estiveram muito presentes no cinema. “Não vejo estes elementos como características próprias do digital. O que pode ser creditado à nova tecnologia é a democratização das ferramentas e dos meios de produção, algo que começou a se desenhar no final do século 20”.

 

Ele entende que a democratização do cinema passa não só pela tecnologia digital, mas também na distribuição. “Quase não se vê cinema independente brasileiro no streaming, e isso acontece porque o segmento carece de regulação”.

 

Corroteirista de “Ainda temos a imensidão da noite”, que conquistou os os prêmios de Melhor Fotografia e Melhor Montagem na Mostra Brasília da 52ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro no ano passado, Cristiane Oliveira destaca que iniciativas como a estruturação de iferramentas de fomento, como a criação da Ancine, que regula atividade, e do Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional), imposto destinado a gerar o Fundo Setorial do Audiovisual, foram responsáveis pelo crescimento do mercado audiovisual em geral.

 

Ela ressalta também que foi o período em que se estabeleceram cotas regionais em editais públicos, o que permitiu a descentralização da produção. “Foi o momento de estruturação de pequenos produtores de diversos estados do Brasil, que ganharam projeção graças a programas que mostraram a diversidade criativa do nosso país, como o DOC TV, o ANIMATV e o Pontos de Cultura”.

 

O cineasta brasilense Marcelo Díaz, cujo primeiro longa, “Maria Luiza”, documentário sobre a discriminação contra militar transsexual das Forças Armadas, reconhece a importância do barateamento da produção permitido pela tecnologia surgida nos anos 2000, mas reclama da dificuldade, vinte anos depois, que ainda é fazer o produto audiovisual chegar ao público.

 

Ele destaca como características principais do cinema brasileiro “a extraordinária diversidade, com enorme qualidade estético-narrativa, com reconhecimento internacional”. Seu inédito “Maria Luiza” coleciona menções, entre as quais a seleção oficial em “É Tudo Verdade”, no Festival de Brasília, e em eventos no exterior – FIDBA/Buenos Aires, San Diego Latino, Chéries-Chéris,LGBTQ/França, TranScreen/Holanda, Cine Por los Derechos Humanos/Colombia, International Queer FF Playa del Carmen/México.

 

“Estamos em casa no meio dessa pandemia, mas a cabeça está a mil. Podemos perceber, com a oferta de produtos para assistir de graça que estão sendo disponibilizados, como é importante a cultura chegar nas pessoas, pelo seu caráter transformador. Aqui em Brasília, por exemplo, nossas lentes precisam caminhar pelas regiões administrativas”, afirma Díaz , que acredita ser a regionalização um dos frutos mais importantes que os anos 2000 legaram ao país, conclui Díaz.

 

Filmes para assistir de graça até o final do mês

 

Confira a seguir uma amostra do que os anos 2000 representaram para a indústria do cinema no Brasil. Um presente para o público no aniversário do Cine Brasília e da capital da República.

 

“Carandiru” (2003)
De Hector Babenco / Drama / 145min / Classificação: 16 anos
O filme que reconstrói o massacre ocorrido na extinta penitenciária Carandiru já se tornou um clássico da História do Cinema Brasileiro. A grande repercussão internacional da obra gerou na sociedade um amplo debate sobre o sistema penitenciário brasileiro, indo para muito além das salas de cinema. As interpretações magistrais dos atores garantiram que a produção fosse consagrada como o filme nacional de maior bilheteria do ano e o 3o lugar no ranking geral do Brasil.

https://www.looke.com.br/History/Play?m=63432

 

“Cartola – Música para os olhos” (2006)
De Hilton Lacerda e Lírio Ferreira / 88min / Documentário / Classificação: 10 anos
O filme narra a trajetória artística do cantor e compositor Cartola, um dos maiores expoentes do samba carioca. O documentário mistura imagens de arquivo com filmagens recentes do morro da Mangueira. Recolhe também depoimentos de pesquisadores do samba como Hermano Vianna, Nelson Nóbrega e Sergio Cabral. A obra se propõe a lançar questões sobre a construção da memória cultural do Rio de Janeiro, discutindo polêmicas como a origem do samba e venda da autoria de obras musicais imposta a alguns compositores de baixa renda.

 

https://www.looke.com.br/History/Play?m=67812

 

“Um homem de moral” (2009)
De Ricardo Dias / 84min / Documentário / Classificação: Livre
O filme narra a trajetória do compositor e zoólogo Paulo Vanzolini. A obra é construída em cima de em uma longa entrevista filmada com o autor de lendários sambas como “Ronda” e “Volta por cima” e tem a cidade de São Paulo como pano de fundo de toda a narrativa. O filme se propõe a investigar o magistral equilíbrio de uma vida dedicada à ciência e à composição musical.

 

https://www.looke.com.br/History/Play?m=67808

 

“Domingos” (2008)
Dir: Maria Ribeiro / 71min / Documentário / Classificação: Livre
Documentário sobre e com Domingos de Oliveira que mistura uma boa edição de arquivos de filmes com depoimentos exclusivos capturados em vídeo. Revelando um ambiente intimista, a câmera demonstra a proximidade da diretora com o seu personagem. Ao final de sua vida, o ator, diretor e dramaturgo Domingos de Oliveira rememora a sua obra e divaga sobre a existência humana e sua relação com a morte.

https://www.looke.com.br/History/Play?m=155564

 

“Brava gente brasileira” (2000)
Dir: Lucia Murat / 103 min / Drama / Classificação: 14 anos
Passado no século XVII, o drama reconstrói a disputa entre os índios Cadiuéus (também conhecidos como Kadiwéus) e a coroa portuguesa pelo território mato-grossense. A diretora retrata como os sonhos de encontrar metais preciosos e os desejos de habitar a nova região se misturavam aos sentimentos de superioridade eurocêntrica presentes no imaginário dos colonizadores portugueses. A obra explora sobretudo questões ligadas a resiliência e resistência dos povos originários, algo que ressoa em obras mais recentes como o premiado “Bacurau”.

 

https://www.looke.com.br/History/Play?m=151621

 

“Um Passaporte Húngaro” (2003)
Direção: Sandra Kogut / Documentário / 71min / Classificação: Livre
Através do pedido de um passaporte, Sandra Kogut parte em busca da história da família, dividida entre dois mundos e dois exílios: aqueles que se foram e aqueles que permaneceram, os imigrantes que chegaram ao Brasil na década de 40 em decorrência da Segunda Guerra e os que não puderam sair da Hungria.

 

https://www.looke.com.br/History/Play?m=155620

 

“O aborto dos outros” (2008)
Dir: Carla Gallo / 72min / Documentário / Classificação: 12 anos
Classificado no subgrupo dos documentários de observação, o filme acompanha o caso de mulheres que optam por interromper suas gestações. Merece destaque o delicado trabalho de câmera que acompanha as protagonistas sem mostrar o seu rosto. É possível sentir toda a angústia sem que as expressões faciais sejam reveladas.

 

https://www.looke.com.br/History/Play?m=155614

 

“Maldito – O estranho mundo de José Mujica Marins” (2000)
Direção: André Barcinski e Ivan Finotti / Documentário / 65min / Classificação: 14 anos
O documentário reconstrói por meio de depoimentos e imagens de arquivo o ambiente extremamente particular dos sets de filmagem de Zé do Caixão. O filme lança reflexões sobre a obra do maior diretor de thrillers brasileiros, abordando as razões pelas quais alguns de seus filmes foram censurados durante a ditadura militar e sobre o porquê de seu reconhecimento artístico ser maior no exterior do que em seu próprio país .

 

https://www.looke.com.br/History/Play?m=155644

 

“Aboio” (2005)
Direção: Marília Rocha / Documentário / 71min / Classificação: Livre
Vencedor do prêmio de melhor filme brasileiro do Festival “É Tudo Verdade”, o documentário retrata os costumes dos vaqueiros nos sertões de Pernambuco, Bahia e Minas Gerais. Além disso, o filme faz uma ligação entre a cultura popular e erudita no Brasil, por meio de entrevistas com artistas que usam referências do universo dos vaqueiros, como Naná Vasconcelos, Elomar e Lirinha (Cordel do Fogo Encantado).

 

https://www.looke.com.br/History/Play?m=155633