Governo do Distrito Federal
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4/10/19 às 17h20 - Atualizado em 10/10/19 às 17h44

Casa do Cantador vai virar centro de referência para literatura de cordel

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Espaço está sendo reformado e em dezembro deste ano será reaberto ao público com nova identidade

 

Brasília vai ganhar um centro de referência de literatura de cordel na Casa do Cantador, em Ceilândia, equipamento da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec). A Biblioteca do espaço, que hoje conta com 800 títulos no formato de cordel e 700 livros, está passando por uma reestruturação, que inclui nova delimitação no perfil temático, voltado para a poesia, artes, cantorias, músicas e folclore do Nordeste, região do país de onde migraram trabalhadores que vieram para a construção da capital federal, radicando-se depois na região administrativa. Dentro deste contexto, surgiu a ideia de se criar uma Cordelteca.

 

A reforma do espaço prevê que as janelas irão receber proteção contra luz solar e calor, a decoração será temática, contando com tapetes e almofadas produzidos pela comunidade em oficinas. Adesivos em padrões de xilogravuras estamparão as paredes, e os tradicionais varais de cordéis também estarão presentes, compondo um ambiente acolhedor e convidativo para a leitura e a permanência, informa a gerente de acervos da Subsecretaria do Patrimônio Cultural (Supac), Aline Ferrari de Freitas.

 

Cordéis e livros serão classificados e ficarão disponíveis para consulta no Sistema Interligado de Bibliotecas Públicas e Escolares do DF, pelo software Koha. A previsão de inauguração é 10 de dezembro, a tempo para o aniversário de 60 anos de Brasília em 2020. A cordelteca permitirá a realização de oficinais ligadas ao tema, além de ser um espaço de leitura e convivência social.

 

“A Casa do Cantador vai ressurgir ainda mais vigorosa com a cordelteca, mais equipada para divulgar o importante patrimônio cultural do Nordeste”, diz o subsecretário da Supac, Cristian Brayner.

 

O espaço receberá o nome de João Melchiades Ferreira (1869-1933). Esse paraibano, conhecido como “O Cantor da Borborema”, foi um cantador e poeta de literatura de cordel. É considerado um dos grandes nomes da primeira geração de cordelistas nordestinos.

 

“É uma excelente escolha”, diz Danglei de Castro Pereira, professor de literatura brasileira na UnB e também pesquisador da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAP/DF), que desenvolve pesquisas relacionadas a literatura e cultura com ênfase na cultura popular. Ele destaca a capacidade do cordel de se ajustar aos meios digitais, uma vez que a transmissão oral é parte da linguagem dessa plataforma. Há, na rede, segundo ele, grupos de discussão, sítios e canais no YouTube.

 

O estudioso afirma que o cordel há muito não é um fenômeno apenas nordestino, tendo passado por um processo de nacionalização, no qual os estados da federação, com ênfases distintas, se apropriaram da arte com recortes particulares. A literatura de cordel recebeu no ano passado o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, registro dado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

 

O especialista da UnB destaca que ao longo dos anos, o cordel vem ganhando modificações em seu processo de construção, com mudanças no uso da xilogravura, modos de impressão, e variações no modo de composição, mas sempre na esteira do cancioneiro popular, a partir da cultura fiel às tradições regionais em aparente oposição ao erudito.

 

Virou novela (Cordel Encantado, 2011), mas faz parte também de iniciativas sofisticadas, como a do Movimento Armorial de Ariano Suassuna, que busca criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do Nordeste.

 

O presidente da Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC) – que tem sede no Rio –, Gonçalo Ferreira da Silva, festeja a intenção da Secec em criar a cordelteca no Cantador. “É uma ideia que aguarda há dez anos sua concretização e vem em boa hora”, avalia ele. Hoje existem 28 bibliotecas de cordel no país, com concentração no Nordeste. “O Ceará tem oito, mas é porque sou de lá e a demanda acaba sendo maior”, explica. Nascido em Ipu (CE), é autor de 300 cordéis e 30 livros.

 

“O cordel tem uma inteligência que possibilita que a linguagem se adapte às inovações tecnológicas. Foi incorporado pelo rádio, a TV e agora acha seu caminho na Internet. Sua beleza melódica e potencial artístico e pedagógico o tornam imortal, universal”, diz Silva.

 

Funcionário da Rádio MEC por 40 anos, começou a compor literatura de cordel a partir do contato com intelectuais como Sebastião Nunes Batista e Origenes Lessa, na Casa Rui Barbosa. O “senhor Gonçalo”, como é conhecido, estuda uma doação de acervo dessas peças para a Casa do Cantador. Quem também quiser encaminhar exemplares ao espaço pode ligar no telefone (61)33256222 ou mandar para um desses endereços:

 

Biblioteca Nacional de Brasília
Setor Cultural da República, Área Cívica, Lote s/n Edifício da Biblioteca Nacional, DF, 70070-150

 

Casa do Cantador
QNN Quadra 32 Área Especial G – Ceilândia, Brasília – DF, 72220-327

 

Secretaria de Cultura e Economia Criativa
SDCN Via N2 Anexo do Teatro Nacional – Asa Norte, Brasília – DF, 70086-900

Arte: Daniel Marques