Governo do Distrito Federal
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15/07/21 às 10h36 - Atualizado em 15/07/21 às 14h53

Casa do Cantador abriga peleja de repentistas

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Texto: Alexandre Freire /Edição: Sérgio Maggio (Ascom Secec)

14/07/2021

11:17:20

 

Se você é bom de rima e improviso e não tem medo de peleja, aprume-se: começa, nesta sexta-feira (16.7), o Festival Regional Itinerante de Repentistas do DF e Entorno. Com apoio do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec), o evento será no formato virtual e colocará seis duplas de cantadores para disputarem o gosto do público e as notas de quatro jurados. Os melhores se enfrentam no domingo (18.7) para disputar os três primeiros lugares.

 

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O evento conta com a ajuda da Associação dos Cantadores Repentistas e Escritores Populares do DF e Entorno (Acrespo) e a parceria da Casa do Cantador, em Ceilândia, equipamento da Secec onde serão realizadas as gravações das “lives”, com transmissões pelo Facebook (clique aqui) e YouTube (clique aqui).

 

 

Ludmila Barbosa

 

“A Casa do Cantador é uma joia nordestina criada por Niemeyer e totalmente afeita a um projeto com esse desenho, onde o canto e a poesia do Sertão nordestino são abrigados com a merecida honra”, destaca o secretário de Cultura e Economia Criativa, Bartolomeu Rodrigues.

 

O Festival foi contemplado no edital FAC Áreas Culturais nº 17/2018, na linha “Culturas Populares”, com o valor de R$ 200.000,00 e estimativa de 70 empregos diretos e indiretos.

 

 

Além dos competidores, as “lives” terão a participação especial de repentistas consagrados, como Chico de Assis, Edmilson e Lisboa, Mocinha de Passira, Minervina Ferreira e Irmãos Silva. O júri é formado por outros violeiros: João Bosco, Lília Diniz, Rene Bomfim e Donzílio Luiz.

 

“A importância do Fundo de Apoio à Cultura para esse tipo de projeto é fundamental justamente porque é um tipo de arte que não está na grande mídia. Vem do Sertão do Nordeste. É muito difícil organizar uma iniciativa desse porte sem fomento público”, explica o diretor do festival, João Santana.

 

PIONEIRA DO REPENTE

acervo pessoal

Minervina Perreira

A ausência de mulheres na disputa no festival se explica pelo fato de o repente ainda ser uma arte dominada pelos homens, como atesta a paraibana Minervina Pereira, há 40 anos na profissão: “Foram muitas dificuldades, nasci e cresci na zona rural (Cuité, PB), trabalhando na roça. Ouvia as cantorias, sentia aquele impulso que os poetas tocavam em mim, mas meu pai não permitia”.

 

O talento foi mais forte. Minervina começou a tocar com um irmão, os vizinhos elogiavam e os convites e “uns trocadinhos” começaram a aparecer.

 

Assim, a paraibana ganhou o mundo, criou seis filhos e se formou em pedagogia, exercendo o magistério por 20 anos. Pergunta se o repente fazia parte das aulas para ajudar a memorizar as lições?

 

“Oxe, muitas vezes”, responde de pronto.

 

No interior do Nordeste, onde gênero costuma ser destino, Minervina reinventou o papel da mulher: “O repente me tornou uma pessoa pública e, com o tempo, fui perdendo a timidez de conversar e me expressar frente às pessoas”.

 

Sobre o machismo no meio, diz: “é uma profissão onde há predominância de homens, então, muitas vezes, fui vítima da discriminação, mas minha persistência me fortaleceu para enfrentar a situação com muita garra e coragem”.

 

LINGUAGEM E HISTÓRIA

arquivo pessoal

João Miguel Sautchuk

“Repente é poesia”, define o professor do Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), João Miguel Manzolillo Sautchuk, cuja tese de doutorado estuda o gênero nordestino.

 

“Embora cantado e com acompanhamento de viola, é poesia”, frisa. Ele explica que a arte “segue regras muito complexas, que os cantadores dominam com fantástica naturalidade”.

 

Do ponto de vista da linguagem, João Miguel ensina que há uma métrica específica, composta de estrofes de seis versos (sextilhas) em que o segundo, o quarto e o sexto versos de sete sílabas rimam entre si. A rima é perfeccionista, “quase parnasiana”, revela.

 

“Você não pode acochambrar, rimando, por exemplo, céu e cordel”, exemplifica em referência a parear palavras com terminações diferentes, neste caso o “éu” de céu com o “el” de cordel.

 

Além disso, os contendores têm de seguir a “oração”, a coerência do argumento, se possível evocando belas imagens, poéticas. “Se um abre falando sobre a pandemia, o outro não pode dizer da saudade de um amor”, exemplifica.

 

Em suma, poesia, métrica, ritmo, rima e oração não são perdidas de vista junto com os acordes que propõem no campo da linguagem a luta que o nordestino conhece desde que nasce.

 

João Miguel coordenou o processo de pesquisa, já finalizado, que deve transformar o repente em bem cultural imaterial registrado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) ainda neste ano. O docente da UnB também atesta a relação de trocas entre repente e cordel. Enfatiza, contudo, que são artes autônomas, com o cordel alinhando-se mais à narrativa da prosa, com suas tramas, desenvolvimentos de personagens e desfecho. Lembra pelejas típicas no cordel, colocando frente a frente tipos tradicionais, como o cachaceiro e o evangélico, ou a feirante e o fiscal, entre outros.

 

Ouça João Miguel sobre a história do Cordel

Regional Itinerante de Repentistas do DF e Entorno

 

Apresentação: Chico de Assis.
Jurados: João Bosco, Lilia Diniz, Rene Bomfim e Donzílio Luiz.
Classificação indicativa: Livre.
Transmissão: Facebook (clique aqui) e YouTube (clique aqui).

Hora: 20h.

Acessibilidade: apresentações com interpretação em Libras.

 

Etapa classificatória

 

Data: 16 de julho.
Atrações especiais: Edmilson e Lisboa.

 

Data: 17 de julho.
Atrações especiais: Mocinha de Passira e Minervina Ferreira.

 

Etapa final

 

Data: 18 de julho.
Atrações especiais: Irmãos Silva (repentistas) e Mamulengo Fuzuê (teatro de bonecos).

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Ascom/Secec)

e-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br