Governo do Distrito Federal
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6/07/20 às 14h07 - Atualizado em 6/07/20 às 14h12

Um dos idealizadores do Galpão, embrião do Espaço Cultural Renato Russo, lembra peça que inaugurou o teatro

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Em “live” organizada no Instagram do ECRR, João Antônio Lima Esteves conta um pouco de história

 

Há 45 anos no mês passado, nascia o Teatro Galpão, onde hoje funciona o Espaço Cultural Renato Russo (ECRR), na 508 Sul, equipamento da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec). No dia 27 de junho, uma “live” no perfil social do ECRR no Instagram marcou o aniversário desse importante espaço cultural da capital da República.

 

No evento, um dos idealizadores do Galpão, o ator, diretor e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), João Antônio de Lima Esteves, falou da peça que inaugurou o teatro em 1975. “O homem que enganou o diabo e ainda pediu o troco”, recheada com críticas sociais em plena ditadura militar, foi um estrondoso sucesso de público.

 

Graduado fora da disciplina que lhe deu a ribalta (o Direito), fez especialização em teatro na França, na École Jacques Lecoc, participou como ator ou diretor em mais de 60 espetáculos teatrais e de dança e em outras 30 produções cinematográficas. O mineiro de Uberaba foi pioneiro na criação dos Departamentos de Artes Cênicas da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e da UnB.

 

Entrevista

 

Depois da “live”, conversou com a reportagem do site da Secec. Seguem os principais trechos da rápida entrevista.

 

Qual foi a sensação de fazer a live 45 anos depois de levar a peça “O homem que enganou o diabo e ainda pediu o troco” que inaugurou o Teatro Galpão?

 

“É um prazer relembrar um fato tão importante para história de Brasília e a minha história pessoal. O Galpão surgiu da necessidade de espaço para a produção local. Assim que consegui a autorização para invadir o galpão da Novacap [Companhia Urbanizadora da Nova Capital, criada por Juscelino Kubitschek em 1956 para construir Brasília], ao lado da Fundação Cultural [precursora da Secec, que funcionava na 508 sul], comecei a pensar no primeiro ato.”

 

Como se deu a escolha do texto?

 

“Queria que fosse uma demonstração do que a cidade tinha de melhor. Consegui o texto do Luiz Gutemberg, chamei Laís Aderne para dirigir atores e atrizes da melhor qualidade. E assim abrimos espaço para nossas produções e uma programação riquíssima de grupos experimentais de todo o Brasil. Pudemos influenciar o nosso fazer e criar nosso público.”

 

A peça tem atualidade? Seria pertinente reencená-la hoje?

 

“O ‘Homem que enganou o diabo e ainda pediu troco’ é uma crítica social baseada na cultura nordestina, por isso muito brasiliense. Infelizmente ainda é muito atual. É uma grande montagem [na formação original], com cerca de 15 atores. Atualmente nossa realidade financeira só nos permite trabalhar com pequenos elencos e pouca cenografia. Fora isso, a atualidade do tema e a qualidade da peça mereceriam uma remontagem. Afinal, o diabo continua por aí assumindo várias formas…”

 

O senhor fez justamente o papel dele, não?

 

“Sim, meu personagem era o diabo, que se transvestia em diversos outros. A cartomante era um deles… Ao todo eram sete, um número cabalístico.”

 

Pode apresentar ao público que não os conheceu o autor da peça, o alagoano Luiz Gutemberg, e a diretora, Laís Aderne, nascida em

Diamantina (MG)?

 

“Luiz Gutemberg é um dos mais importantes jornalistas políticos do país, além de escritor. Foi editor da ‘Veja’ e do ‘Jornal de Brasília’. Foi premiado no Concurso Nacional de Dramaturgia em 1971 do extinto Serviço Nacional de Teatro (SNT).
Laís Aderne, falecida em 2007, foi Secretária de Cultura do DF, professora de UnB, onde ajudou a criar o curso de educação artística, embrião do nosso Departamento de Artes Cênicas, criou a Casa da Cultura da América Latina, o Festival Latino-americano de Arte e Cultura (FLAAC) e da Feira de Troca dos Olhos d’Água. Mas, principalmente, foi uma educadora.”

 

Qual sua avaliação do teatro que se produz em Brasília, da trajetória da arte na capital?

 

“45 anos depois da inauguração do espaço que foi uma usina de criação extremamente importante, vivemos numa cidade com várias escolas e uma importante produção espalhada por todo o Distrito Federal, com um público que lota nossas salas de espetáculos e com uma comunidade de artistas batalhadora por melhores condições de trabalho. Sofremos com o fechamento de vários espaços, aguardamos com ansiedade a volta do nosso Teatro Nacional. Continuamos a produzir arte da melhor qualidade.”