Governo do Distrito Federal
Governo do Distrito Federal
10/10/20 às 15h14 - Atualizado em 14/10/20 às 7h16

Projeto da Secec mergulha na memória do “massacre da Pacheco Fernandes Dantas”

COMPARTILHAR

Pesquisa fotográfica e “live” com Vladimir Carvalho jogam luz sobre execução de operários na construção de Brasília

 

Texto: Alexandre Freire. Edição: Sérgio Maggio (Ascom/Secec)

10/10/2020

15:27:03

 

No domingo de Carnaval de 8 de fevereiro de 1959, pouco mais de um ano antes da inauguração da capital federal por Juscelino Kubitschek, policiais da Guarda Especial de Brasília (GEB) dirigiram-se, camuflados num caminhão, ao acampamento da construtora Pacheco Fernandes Dantas, uma das empreiteiras à frente dos trabalhos de engenharia civil, para resolver um caso de protesto de candangos nos alojamentos. Massacre de operários ou uma refrega com as forças da ordem que reconhecem apenas um corpo?

 

“Não tenho dúvidas sobre algo monstruoso que certamente aconteceu nos ermos e naqueles barracões de obras”, afirma o o cineasta Vladimir Carvalho, ex-professor da UnB, 85 anos, responsável pela criação do Núcleo de Documentários do curso de Cinema da Universidade de Brasília (UnB).

 

Na terça-feira (13.10), Vladimir Carvalho aprofundou esse episódio em “live”, promovida pelo projeto “Imagem e Memória Candanga”, da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec).

 

Assista à Live:

Parte 1

Parte 2

 

O debate é também conduzido pela Subsecretaria de Patrimônio Cultural no perfil no Instagram, por meio de nove postagens, com fotos e legendas informativas sobre as versões do acontecimento no acampamento da empreiteira, localizada no que é hoje a Vila Planalto, onde uma rua sinaliza o local e um monumento modesto faz referência às mortes de trabalhadores no episódio. As postagens mostram as primeiras moradias e como eram os acampamentos.

 

Confira a cobertura do debate no Facebook da Secec

 

 

 

EVIDÊNCIAS DO TEMPO

Arquivo Público

Operários na construção de Brasília: comida ruim foi item de protesto

 

Vladimir transformou o episódio em dois filmes que sustentam a versão de que ao menos uma centena de trabalhadores foi executada: “Conterrâneos Velhos de Guerra” (1991) e “Brasília segundo Feldman” (1979), a partir de imagens amadoras de um professor estadunidense, Eugene Feldman, em visita ao Brasil, e depoimentos colhidos por Carvalho.

 

Denunciado por trabalhadores que organizavam o que viria a ser o primeiro sindicato da construção civil de Brasília, mediante telegramas disparados de Goiânia para autoridades nos Três Poderes e veículos de imprensa no país, o suposto massacre não sensibilizou a chamada “grande imprensa” da época. Apenas jornais considerados opositores, como “Binômio” (Belo Horizonte) e “O Popular” (Goiânia), cobriram os acontecimentos. Carvalho coletou dezenas de depoimentos durante as duas décadas que levou para concluir a película em 35 milímetros, na qual assina pesquisa, roteiro, direção e produção.

 

Negado pelas autoridades da época ou desdenhado por figuras como Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, cujas falas estão gravadas no filme, a força e a convergência dos depoimentos das entrevistas deixam entrever que Brasília tem uma história que precisa ser contada. Entre as evidências das execuções, ficaram 94 malas com pertences pessoais de pessoas no acampamento da Pacheco Fernandes que nunca foram reclamadas.

 

Entre as causas imediatas do protesto dos trabalhadores reprimido pela GEB estão o corte de água para evitar que os homens saíssem do acampamento para brincar o Carnaval naquele dia, véspera de segunda-feira, diante do cronograma apertado das obras para inauguração da capital (que forçava sobre a massa trabalhadora turnos de 16 horas diárias), e a péssima qualidade da comida servida aos operários, frequentemente crua ou azeda. Vladimir Carvalho participa de “live” em que conversa sobre o filme “Conterrâneos Velhos de Guerra” (1991).

 

CINCO PERGUNTAS PARA VLADIMIR CARVALHO

Arquivo Pessoal

 

“Não tenho dúvidas sobre algo monstruoso

que certamente aconteceu nos ermos

e naqueles barracões de obras”,

Vladimir Carvalho

 

Como foi filmar “Conterrâneos Velhos de Guerra”?

Levei cerca de 19 anos para concluir este filme em vista das compreensíveis reservas dos entrevistados por conta do clima político da época, marcado pela repressão desencadeada pela ditadura militar. As pessoas não se dispunham a falar por puro medo, principalmente aqueles mais humildes quando perguntados sobre os acontecimentos da época da construção de Brasília. Embora uma coisa nada tinha a ver com a outra. Mas eu tinha que respeitá-los.

 

A professora Nair Eloísa Bicalho de Sousa* afirma no texto “O massacre da Pacheco Fernandes Dantas em 1959: memória dos trabalhadores da construção civil de Brasília”, que há evidências de que houve o assassinato dos trabalhadores pela GEB. O senhor firmou alguma convicção sobre o episódio?

Firmei, sim. Respeito a chamada história oral, o veículo do povo e não tenho dúvidas sobre algo monstruoso que certamente aconteceu nos ermos e naqueles barracões de obras. Um filme não é uma chefatura de polícia, nem sempre podemos exibir provas concretas de uma ocorrência como aquela. Ninguém vai realizar um ato de repressão armada e convocar a imprensa para acompanhá-lo. Crimes do mesmo naipe aconteceram muitos anos depois em centros urbanos como Rio de Janeiro (as tragédias da Candelária e de Padre Miguel, no populoso bairro do mesmo nome), São Paulo (o massacre do presídio do Carandiru) onde mataram mais de cem presos, sem falar na chacina de Eldorado dos Carajás, perpetrada pela Polícia do Estado do Pará; todos denunciados amplamente pela imprensa do país.

 

Esse episódio da Pacheco Fernandes Dantas ainda causa espanto nos dias de hoje…

Há pessoas que ainda hoje se escandalizam quando se fala na matança brutal de trabalhadores durante as obras da construção de Brasília. Ora, se à luz do dia e em plena civilização foram capazes de tamanhas atrocidades, que dirá nas condições em que se deu a monumental obra da nova capital, com uma polícia improvisada [GEB] e recrutada entre os piores elementos que por aqui se homiziaram e que foi popularmente chamada de Bate Paus! Esse episódio de alguma forma já evidenciava como os pobres são tratados em nosso país, onde predomina uma justiça de classe.

 

Que dívida Brasília tem com esses trabalhadores e o que imagina que deveria ser feito para passar a história da capital, que completou 60 anos, a limpo?

Há um túmulo no Campo da Esperança que presta singela homenagem aos anônimos construtores de Brasília e, na Vila Planalto, há um cruzeiro com uma inscrição em mosaico de nosso artista Gougon sobre a ocorrência da Pacheco Fernandes Dantas. Eu ampliaria essas iniciativas com um monumento em ponto destacado na Esplanada dos Ministérios, com uma inscrição didática em homenagem àquelas vítimas. Isso não nos redimiria do crime tenebroso, mas completaria a história da epopeia que foi a construção de Brasília.

 

Pode discorrer sobre a premissa de que o cinema é o meio que resgata as histórias não contadas pelos relatos oficiais?

O cinema é uma arte muito convincente e tem essas prerrogativas pela eficácia de suas imagens em movimento. Nesse contexto, sobressai o comentário que tem uma legítima inclinação em refletir o que chamamos de realidade social. Esse é o apanágio do cinema documental quando realizado respeitando a verdade e a ética. Além disso, é difícil trapacear diante das lentes e do som direto de nossas câmeras; elementos que vão fundo no âmago das pessoas.

 

SERVIÇO

Acesse o Instagram (clique aqui)

 

Confira os filmes de Vladimir Carvalho

 

 

 

  • * Nair Eloísa Bicalho de Sousa é professora coordenadora do Núcleo de Estudos para a Paz e os Direitos Humanos (NEP) do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) da UnB e doutora em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP).

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF

e-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br