Governo do Distrito Federal
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25/03/20 às 18h36 - Atualizado em 25/03/20 às 20h22

Pesquisa sobre o Catetinho recupera dados importantes sobre a primeira residência oficial de Brasília

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Servidores em teletrabalho fazem levantamento de fontes na hemeroteca da Biblioteca Nacional no Rio

 

O Catetinho abriga muitas histórias adormecidas. Um trabalho para recontar um pouco delas no aniversário de 60 anos de Brasília, celebrados em 2020, está em andamento. A tarefa é fruto de parceria entre a Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec) e a Secretaria de Educação (Seedf).

 

A gerente do Museu do Catetinho, primeira residência oficial de Juscelino Kubitschek no “ínvio Planalto”, como se referiam ao sítio os cronistas ao tempo da construção da capital, Artani Grangeiro, e o professor de história Ramon Ribeiro Barroncas trabalham de suas residências no levantamento remoto de notícias sobre o local. Eles pretendem divulgar os achados numa exposição, “Catetinho é notícia”, programada para novembro deste ano, quando o “Palácio de Tábuas” completará 64 anos. A entrada será franca.

 

Grangeiro, bibliotecária e especialista em Patrimônio Cultural, e Ramon, historiador, mestre pela Universidade de Brasília (UnB) e professor, participam juntos do projeto Territórios Culturais, parceria das duas pastas para oferecer educação patrimonial aos alunos da rede pública do DF.

 

Ramon está fazendo um levantamento de fontes em periódicos – jornais e revistas – na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional (https://bndigital.bn.gov.br/). O trabalho consiste em utilizar o buscador da hemeroteca da Biblioteca Nacional do Rio, ler os arquivos encontrados, decidir, como historiador, sobre a relevância para a formação de base de dados com foco no Catetinho e fazer um fichamento do qual constam dados como fonte, data, data de acesso, breve resumo e indexação.

 

O historiador encontrou um exemplar do Correio Braziliense de 22 de outubro de 1964, jornal de Assis Chateaubriand que nasce com Brasília, que traz matéria sobre os oito anos que o Catetinho celebraria no dia 10 de novembro seguinte. O texto do cronista Ernesto Guimarães conta a história da habitação que ficou pronta em dez dias. Concebida por colaboradores de JK num encontro em bar da zona sul do Rio de Janeiro em 1956, a obra foi entregue ao mineiro de Diamantina, como surpresa, no dezembro chuvoso do mesmo ano.

 

Ramon também exibe, receoso de as descobertas serem reveladas antes da exposição, uma coluna em que o mesmo cronista relata, na edição de 21 de abril de 1963 do jornal, a primeira visita de JK ao Planalto, ao sítio Castanho. Ao narrar a aterrisagem do avião presidencial com toda a comitiva, que levantava poeira na pista à 2700 metros da Fazenda Gama, ele fala do sonho que só a “tenacidade” daquele mineiro poderia tornar realidade.

 

Essa pesquisa, segundo Artani, cobre lacunas importantes sobre a história do Catetinho, que no fundo é a memória de todo um complexo: Catetinho, Catetão, Bar Buriti, nascente de água onde JK matava a sede, a antiga sede da Fazenda Gama e remanescentes da pista de pouso.

 

“É a história de pontos que existiram onde hoje é o Museu do Catetinho”, explica a gerente do equipamento. As pesquisas de Ramon já elucidaram, por exemplo, que o Bar Buriti, cuja construção existe ao lado do Palácio de Tábuas, já existia antes do que relatos mais frequentes apontam. A reconstituição precisa dos fatos é tida como fundamental para o aprofundamento do trabalho de educação patrimonial, defende Artani.

 

Ela também revela outro objetivo do trabalho, que é fazer um levantamento quantitativo de fontes que possam dar subsídios para pesquisadores do patrimônio da capital. Segundo ela, “a produção literária e acadêmica sobre o espaço ainda é baixa”.

 

Ainda a propósito da pesquisa, vale mencionar outra peça recuperada pelo trabalho de Ramon. Trata-se de uma reportagem da extinta revista “Manchete” (1952-2000, Editora Bloch) em edição do início de 1960. Assinada por Ronaldo Bôscoli e com fotos de Jáder Neves, a matéria documenta a estada de Vinícius de Moraes e Tom Jobim no Catetinho em 1959, onde reuniram inspiração para compor a “Sinfonia da Alvorada” (1960), música que celebraria o nascimento da nova capital.

 

Relatos dizem que a peça era um desejo do arquiteto Oscar Niemeyer, companheiro de conversas de Tom e Vinícius, prontamente chancelado por JK, que passou a cobrar a sua produção pelos músicos cariocas.

 

A revista conta que Tom se embrenhava pelas matas que circundavam o Catetinho, movido pelo cantado amor aos passarinhos e encantado pelos “espetáculos de luz e som” – expressão que chegou a ser o título provisório da Sinfonia – proporcionados pela paisagem do cerrado.

 

Num desses passeios, contam que Tom e Vinícius encontraram um olho de águas cristalinas, de onde beberam depois que um trabalhador local lhes contar que ali havia “água de beber, camará” (camarada, companheiro). Fato ou lenda, o certo é que o encontro deu em música homônima da dupla no auge da Bossa Nova e entrou para o cancioneiro como uma das joias do repertório de samba-canção dos anos 60.

 

Catetão
A pesquisa começou em fevereiro deste ano e, apesar dos alvissareiros achados, ainda está em fase embrionária. Artani Grangeiro aposta em descobrir mais, por exemplo, sobre o Catetão, um anexo da residência oficial de então, inspirado no Park Hotel de Nova Friburgo (RJ), obra de Lúcio Costa.

 

O Catetão foi encomendado por JK, também de madeira, e provido com varandão de treliças e mais espaço para receber o crescente número de convidados atraídos pelo sonho de Brasília.

 

“Após o tombamento do Catetinho, o Catetão foi vendido para um particular, que mandou reconstituir o edifício em sua mansão no Park Way. Além de algumas notícias espaçadas, pouco se sabe sobre a história do imóvel após 1960”, explica a servidora.

 

O diretor de Gestão dos Espaços Culturais da Subsecretaria de Patrimônio Cultural (Supac), Marcelo Gonczarowska Jorge, elogia a iniciativa dos servidores de Territórios Culturais no Catetinho. “A busca e o levantamento de dados sobre a memória institucional desses espaços são muito importantes por parte dos servidores responsáveis por eles. É fundamental para o cumprimento da missão do museu, de seu papel social”, diz.