Governo do Distrito Federal
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29/04/14 às 19h14 - Atualizado em 13/11/18 às 14h45

Os 50 anos do golpe e a ‘ditabranda’

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Sobre o significado das palavras


 

Chega a ser comovente assistir um escritor com longos anos de serviços prestados à literatura cair na armadilha dos setores que desejam justificar o golpe.

A II Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Brasília reuniu cerca de duzentos escritores, poetas, gente do teatro, da música, do cinema, da imprensa e mobilizou ao longo de dez dias, de 11 a 21 de abril cerca de trezentas mil pessoas para celebrar o aniversário da Capital do país em torno do livro. Para celebrar e para resgatar memórias, nesse país dito do esquecimento.

Nos 50 anos do Golpe de 1964, a II Bienal abriu espaço para o debate e a reflexão sobre os significados da Ditadura e seus desdobramentos projetados sobre o processo de transição para a precária democracia que vamos construindo. Ofereceu ao país a contribuição de uma cidade que assistiu paralisada à deposição de um Presidente legitimamente eleito, o Presidente João Goulart, à ruptura do Estado de Direito e o assalto ao poder por uma composição empresarial-militar, ancorada nos interesses dos grandes proprietários de terra, banqueiros, grandes exportadores e detentores dos meios de comunicação que se contrapunham às Reformas de Base propostas por Jango.

Uma das mesas – foram várias – que tratou do tema da produção literária durante os Anos de Chumbo contou com a participação de Ignácio de Loyola Brandão (Zero), Luiz Fernando Emediato (Não Passarás o Jordão) e Domingos Pellegrini Jr (O Homem Vermelho). A intervenção de Domingos Pellegrini Jr em defesa da expressão “Ditabranda” cunhada em editorial pela Folha de S. Paulo, há algum tempo, para justificar diante dos leitores sua cumplicidade do jornal com a Ditadura, ao longo dos 20 anos de vigência suscitou um vivo debate com os demais componentes da mesa e com público numeroso que reagiu com indignação.

Para alguns críticos que classificaram a II Bienal como esquerdista, observo que hoje no Brasil, há um permanente esforço para interditar o pensamento de esquerda, como aliás houve em 64, penso que essa mesa desmente de maneira cabal, aquela classificação. Além de outros espaços de debate em que esteve contemplada a pluralidade de opiniões e perspectivas. Acompanhei atento as intervenções dos palestrantes e do auditório inconformados com a defesa reiterada da expressão “Ditabranda” para designar os Anos de Chumbo.

Penso no significado das palavras. No que elas mostram e no que escondem. O que entendemos exatamente por “brandura”? O autor da frase lembrou que tinha autoridade para afirmar o que afirma porque lutou contra a Ditadura, como militante ou área próxima do PCB. Lembrei ao auditório que David Capistrano da Costa, dirigente do mesmo Partido que o palestrante, teve o corpo esquartejado e a carne suspensa em ganchos de açougue para aterrorizar seus companheiros.

Perguntei: isso é o que devemos entender por “brandura”? Recuperei a história macabra do assassinato de Maria Augusta Thomaz e Márcio Beck Machado, em Rio Verde, Goiás e sua condenação depois de mortos a 12 anos de prisão em 1974, para justificar o desaparecimento dos corpos. Isso é o que entendemos por “brandura”?

Chega a ser comovente assistir um escritor com longos anos de serviços prestados à literatura brasileira cair na armadilha montada pelos setores sociais e políticos que desejam justificar o Golpe e a Ditadura, ao fazer comparações com o ocorreu na Argentina ou no Chile. Induzido a debater a aritmética da barbárie para não discutir a barbárie mesma. Talvez por considera-la ‘um mal necessário’ como certo juiz da Suprema Corte, declarou recentemente. Esse caldo de cultura cuidadosamente temperado pela culinária da mídia conservadora e oferecido diariamente ao paladar da sociedade é que faz nós, brasileiros, tragarmos como se fosse natural uma realidade inconcebível em qualquer país que tenha vivido a tirania que vivemos: um ‘serial Killer’ como Carlos Alberto Brilhante Ustra ou como Paulo Malhães se encontram em plena liberdade, sem responder por seus crimes.

Um parêntesis. O Brasil acaba de receber, enquanto escrevo essas linhas, a notícia do assassinato envolto em mistério do cidadão Paulo Malhães, pouco mais de um mês depois do seu depoimento à Comissão da Verdade quando revelou as atrocidades que cometeu contra opositores do regime. Latrocínio puro e simples? Vingança? Queima de arquivo? Fica a pergunta: até quando este país conviverá com o ambiente pantanoso sem dar as respostas incontornáveis sobre as atrocidades cometidas pela Ditadura empresarial-militar? Fecho o parêntesis, para continuar.

Não deixou de causar certo espanto entre os interlocutores quando, ao ser questionado, Domingos Pellegrini Jr contestou candidamente “a intervenção de vocês é ideológica! Eu não tenho ideologia, eu tenho ideias! Desafortunadamente só ele está a salvo desta maldição: ter uma ideologia. Todos os demais estamos condenados a ela. Penso que a II Bienal nos desafiou a mergulhar nesse passado sombrio, por ocasião dos 50 anos do Golpe, não apenas para pensar o futuro mas, sobretudo para sacudir a intelectualidade brasileira anestesiada para os absurdos do presente. A revisão da Lei da Anistia de 1979 se impõe como uma necessidade histórica. Não há como contorná-la.

(*) Pedro Tierra (Hamilton Pereira) é Secretário de Cultura do Distrito Federal.