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21/12/20 às 17h44 - Atualizado em 21/12/20 às 18h05

Opinião//Ivan, o TerrírVel

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Texto: Lúcio Flávio. Edição: Guilherme Lobão

 

21/12/2020

17:45:00

 

Um dançarino de twist numa galeria de artes. Assim foi definido o estilo versátil de Ivan Cardoso por um de seus colaboradores, o jovem montador, músico, pintor e produtor de filmes Gurcius Gewdner. Um homem múltiplo, de muitas funções e faces, Cardoso inventou o “terrir” – gênero que mistura num mesmo liquidificador, terror, comédia, chanchada e tropicalismo. Terrir está para Ivan como Cinema Novo está para Glauber Rocha.

 

Mas o diretor carioca também é fotógrafo de mão cheia. Artista gráfico criativo, ele é guardião da memória cultural do País, com quilômetros de negativos de filmes experimentais, arquivos de making of de produções do gênero, realizador de exposições de vanguarda a granel e de fotos clássicas, algumas delas, por sinal, estampadas em capas icônicas de discos importantes da MPB.

 

Tudo isso e mais algumas coisinhas para lá de interessantes estão no divertido documentário, “Ivan, o TerrirVel”, de Mario Abbade, filme que encerrou a Mostra Oficial de Longas do 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, neste domingo (20). O filme é uma daquelas obras-resgates fundamentais da memória audiovisual brasileira.

 

Anárquico, debochado, adoravelmente contestador, provocador ao extremo, Ivan aprendeu a fazer muito com pouco, criando uma estética da irreverência que sobreviveu a tudo e a todos, chocando os valores e bons costumes. “O artista tem sempre que ser oposição. Só pode ser a oposição, jamais pode ser governo, porque governo é chapa branca e artista chapa branca não interessa”, filosofa no filme.

 

Com total liberdade para perguntar o que quisesse e pesquisar o que fosse do seu maravilhoso acervo de fotos, filmes e colagens, Abbade e sua equipe se esbaldaram, revelando às novas gerações, a obra de um artista experimental e de estilo autoral inconfundível que esteve lado a lado com os grandes nomes vanguarda nacional de todos os segmentos de seu tempo.

 

Não há como revisitar a sétima arte no Brasil e não se esbarrar com suas múmias, vampiros, lobisomens, musas maravilhosas, vilões e heróis memoráveis roubados de vários gêneros cinematográficos. Aliás, Ivan Cardoso é o rei dos subgêneros.

 

Ivan Flertou com os cineastas udigrúdi, Rogério Sganzerla, Julio Bressane e Neville d’Almeida. Trocou figurinhas com o artista plástico Hélio Oiticica e o fotógrafo Carlos Vergara, sambou com Moreira da Silva na realização de seu primeiro curta de documentário de 1973, aprendeu a amar a literatura cerebral de Dyonélio Machado e as poesias dos irmãos, Augusto e Haroldo Campos, Décio Pignatari e do tropicalista, Torquato Neto, de quem, aliás, transformou em nosso primeiro Nosferatu brasileiro.

 

Todos esses encontros e aprendizados vagam por um trem-fantasma num parque de diversões que não é a Disney, mas fantasias e invenções que saem direto da cabeça do homenageado para o coração do espectador.  É mostrado por meio de uma narrativa descontraída pop, com sequências esmagadoras de informações visuais e depoimentos reveladores,. Entre as falas, constam a da atriz Nicole Puzzi, ícone da comédia erótica brasileira, e do Papa da Pulp Fiction no Brasil, R. F. Lucchetti. Há quem não goste ou entende o jeito tropicalista de Ivan Cardoso, cultuado no exterior, expressar o seu cinema. Mas não há como ignorá-lo.

 

Debate

 

Mediado pelo jornalista Rodrigo Fonseca, o debate da equipe do documentário “Ivan, o TerrirVel” foi o que mais recebeu perguntas de participantes virtuais, conforme registrou a organização do 53º Festival de Brasília – uma amostra mais do que calorosa e notável do apelo deste realizador original do cinema brasileiro, quanto de sua resistência no cenário audiovisual.

 

“Foi um desafio colocar todas essas faces do Ivan Cardoso no filme, mas essa diversidade deixou o trabalho mais plástico”, observou Christian Caselli, um dos montadores do filme. Com Gurcius Gewdner, Caselli relaciona os dois polos que sempre nortearam o trabalho do cineasta. “No Ivan, encontramos uma união singular de duas coisas: boa dose de cinema experimental e de vanguarda – coisas que o Man Ray (artista visual norte-americano ligado ao dadaísmo e surrealismo) fazia –, aliada à paródia ao cinema de gênero”, definiu.

 

Mestre dos caligramas e letras visuais, eterno brincante das fontes das letras em seus filmes, a dimensão da palavra como construção artística foi discutida nos trabalhos do diretor. Também como sua retórica irreverente e singular contribui para a montagem do documentário. “A palavra é sempre o elemento de sustentação da imagem”, argumentou Mario Abbade. “E ela está no discurso do Ivan para preencher e dá uma lógica imagética para as coisas mais loucas e bacanas sitas por ele”, contou.

 

Perguntado sobre a dimensão política da cultura pop e os preconceitos sofridos por essa tendência cultura, o diretor é taxativo:. “É impossível você desassociar uma coisa da outra. Cada vez mais a arte busca referências na cultura pop, você renegar isso é dar um tiro na cabeça”. Ao citar a obra-prima de Charlie Chaplin, Tempos Modernos (1936), Abbade arrematou: “O melhor tipo de cinema para mim é aquele que é de entretenimento e o discurso político e social está lá fazendo parte do filme”.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Ascom/Secec)
E-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br