Governo do Distrito Federal
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16/12/20 às 23h19 - Atualizado em 17/12/20 às 15h03

Opinião//“Espero Que Esta te Encontre e Que Estejas Bem”

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Texto: Lúcio Flávio/ Edição: Sérgio Maggio (Ascom//Secec)

16.12.20

23:20

 

Daniel Marques“Tudo termina no lixo, a verdade é essa”. A frase é chocante e dita com certeza pragmática por um dos vendedores de antiguidades da Praça XV, Rio de Janeiro. Afinal, ele sabe o que fala. Foi dele que a diretora Natara Ney obteve um lote de cartas perdidas, escritas por um casal apaixonado do início dos anos 1950. Movida por um senso de delicadeza imenso e poesia interior singular, a criadora não jogou fora a oportunidade de contar uma bela história de amor registrada em intensas trocas de afeto, carinho, saudade e muita paixão, que aplacaram, assim, uma distância de milhares de quilômetros entre Campo Grande (MS) e Rio de Janeiro.

 

Eis o ponto de partida de seu documentário, “Espero Que Esta te Encontre e Que Estejas Bem”.

 

“Lonjura é matemática, distância é sentimento”, reflete, em dado momento dessas missivas resgatadas do esquecimento, um dos enamorados pombinhos.

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Por trás de todo esse romantismo e versos sentimentais, esconde uma reflexão pertinente sobre a memória, afetiva ou não, a passagem do tempo – “um dos deuses mais lindo”, já dizia Caetano Veloso -, o vigor das relações verdadeiras, enfim, o paralelo entre passado e presente. Cabe, inclusive, uma ressignificação do fazer cinematográfico, quando se associa película, formato digital, papel, escrita, oralidade. Em tempos de fugacidade, onde tudo é perene e superficial, passageiro e “deletável” e a importância de se preservar, arquivar e resgatar é banalizada (vide o caso da Cinemateca Brasileira), o filme surge como farol lírico.

 

EMOÇÃO EM CAMADAS
É uma narrativa construída em camadas, na qual a emoção é o fio condutor, entrelaçando histórias e lembranças que vão se encaixando uma dentro da outra. A forma é a de um mosaico poderoso de relatos pessoais e impressões sensoriais diluídos numa montagem eficiente. Ao longo de todo filme, a diretora evidencia a força da história oral, da contação de “causos”, do discurso intimista que vira universal. “Um carteiro chegar à sua porta era uma alegria”, diz uma moradora de Campo Grande (MS).

 

São detalhes que nos leva a várias indagações. Como era a vida na época desse encontro amoroso? O comportamento das pessoas? O movimento das cidades? Como essas pequenas metrópoles se formaram? Como todos esses elementos se interagiram com esse casal apaixonado? “Prometi a minha esposa que queria ver o mar através dos olhos dela”, belíssima declaração de amor que resume a essência do filme, mas também dos sinais dos nossos tempos. Divertido e ilustrativo, por exemplo, a origem da Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro.

 

Ao fazer da devolução dessas cartas aos seus donos, uma missão, a diretora embarcou numa viagem no tempo em que o passado se interage com o presente, projetando um futuro incerto. O que será de nós nesses dias de contatos passageiros, virtuais, norteados pela falta de sentimento e por uma velocidade, rapidez que, emocionalmente, não nos leva a nada, a lugar nenhum. Há infinitas formas de se contar uma história de amor. Essa é uma delas…

 

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DEBATE//“Espero Que Esta te Encontre e Que Estejas Bem”

16.12.20, às 10h

 

 

Para a diretora Natara Ney, resgatar a memória, ter conhecimento do passado, dá régua e compasso para se desenhar um futuro melhor. “As pessoas estão querendo apagar a ditadura, a memória da escravidão no país. Quando tentam apagar a memória, apagam a história. A memória sempre foi algo muito precioso, uma forma de prepara as novas gerações”, avaliou a diretora, durante debate sobre o filme realizado nesta terça-feira (16), com a produtora do filme, Danielle Villanova.

 

“Falar de memória leva esperança para o futuro, para as coisas serem diferentes”, concorda Danielle.

Durante o encontro promovido pela FBCB, as duas realizadoras falaram ainda sobre o processo de realização do documentário, que levou 10 anos para ser finalizado. O projeto, que nasceu curta-metragem, conta com narração da atriz Renata Sorrah. “Na primeira estrutura do filme, apresentada na edição, percebemos o potencial dele para um longa, então fomos atrás de verba”, contou Natara. “A primeira ideia era convidar a Renata, a galera achou supertop, mas achamos que, ter mais uma voz no filme, seria complicado, então comecei a ensaiar a narração”, lembrou.

 

Natara Ney e Daniella Villanova aproveitaram a oportunidade para elogiar a coragem dos realizadores do FBCB, sobretudo num momento tão obscuro em que a humanidade atravessa. “Foi uma honra nesse momento entregar esse produto num festival tão tradicional”, observou a diretora. “É muito emocionante ver o filme estrear dentro da casa das pessoas, abordando esses temas com tanta poesia e emoção, importante que tenha havido essa garra e vontade e o festival se reinventar depois de 53 anos, acontecendo da forma que era possível”, elogia Daniella.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF

e-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br