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19/12/20 às 10h10 - Atualizado em 19/12/20 às 10h11

Opinião//”A Luz de Mario Carneiro”

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Texto: Lúcio Flávio. Edição: Guilherme Lobão (Ascom Secec)

 

19/12/2020
10:10:00

 

Mario Carneiro foi a luz que iluminou boa parte das produções do Cinema Novo, movimento cinematográfico que colocou os filmes brasileiros no cenário internacional. Daí o título cheio de reverência da diretora Betse de Paula para o documentário (um produto do Canal Curta!), que homenageia o artista, exibido no Canal Brasil pela Mostra Oficial de Longas-Metragens do 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

 

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Homenagem mais do que merecida, o filme é construído por dezenas de imagens de arquivos, algumas raridades formidáveis – como registros amadores em 16mm -, muitas cenas de filmes e um bocado de entrevistas feitas com o cineasta e diretor de fotografia ao longo de décadas.

 

E é ele, somente ele, o narrador de sua trajetória. Na verdade, um bom papo com esse nome importante do nosso audiovisual. É arqueologia de uma vida toda, o conto de uma geração.

Filho de diplomata que um dia pensou em fazer das artes plásticas um estilo de vida, Mario Carneiro teve várias facetas antes de se entregar, por completo, ao cinema. Pintor, gravador, se formou em arquitetura e chegou a trabalhar com nomes relevantes do segmento como Oscar Niemeyer e Lucio Costa.

 

Contudo, sua paixão pela câmera, pela imagem em movimento e, sobretudo, pela a luz, foi maior. A verdade, como mostra o filme, é que a arte pictórica nunca saiu de dentro de Mario Carneiro, o ajudando a nortear seus trabalhos no cinema.

 

“No meio das artes plásticas o cinema começou a apontar. Papai achava que esse negócio de artista era o fim da picada”, lembrou numa das conversas. “Quando pego numa câmera entro em estado de magia”, confessou, diante de uma delas, numa das várias entrevistas que deu.

 

Para quem é amante do cinema brasileiro, o resgate da história dessa figura ímpar do nosso audiovisual é de uma relevância única. Num País no qual a memória é vilipendiada o tempo todo e o tempo todo alvo de vários tipos de torpeza, viajar pelas lembranças, histórias e narrativas desse grande criador é um néctar.

 

Está tudo lá, contado de um jeito simples, espontâneo e sincero. A transição da pintura para o cinema, em meado dos anos 50, os primeiros trabalhos como diretor de fotografia, a formação do Cinema Novo, as tretas e amizades, a experiência como montador e cineasta, suas impressões artísticas a arte e a vida.

“Acontece que a minha geração foi a geração do cinema”, constatou certa vez.

 

As histórias de bastidores são divertidíssimas e carregam, na essência, o signo de uma época. Joaquim Pedro de Andrade lhe roubou a namorada, mas lhe deu a parceria em vários trabalhos memoráveis como “Couro de Gato” (1960), “Garrincha, a Alegria do Povo” (1962) e “O Padre e a Moça” (1965). Com Paulo César Saraceni, fotografou, talvez, um de seus melhores trabalhos, “Porto das Caixas”, no qual aprendeu a fazer enquadramentos perseguindo a luz da lamparina.

 

Na casa da musa da Bossa Nova, Nara Leão, quase saiu nos tapas com o dramaturgo Vianinha, em defesa do cinema. Tudo é contado com observações espirituosas e pontuais.

 

“Do ponto de vista do diretor, o montador é um elemento castrador de sua criatividade, alguém que diminui o material que ele filmou”, resume, sua experiência como montador.

 

Enfim, “A Luz de Mario Carneiro” surge como um belo testamento. Um relicário honesto para as novas e futuras gerações de cineastas, diretores de fotografia, montadores e, sobretudo, artistas plásticos, composto não apenas sobre a arte de fazer cinema no Brasil, mas também por seus heróis. Mario Carneiro foi e será sempre um deles. Num momento em que a cultura brasileira e nossa história passam por crises institucionais sérias, o documentário é uma aula de como valorizar nossos artistas, a arte brasileira em todos os segmentos.

 

DEBATE

 

Mediado pela jornalista Flávia Guerra, o debate sobre o filme,“A Luz de Mario Carneiro” contou com a presença da artista plástica, Beatriz Carneiro, filha de Mario Carneiro, que fez considerações afetivas sobre o pai. “O cinema sempre esteve dentro da minha casa, uma casa muito louca, que vivia cheia de gente, na verdade, eu nunca tive um pai normal”, brincou ela. “Ele era um desmistificador, como era bom conversar com o papai”, lembrou, carinhosamente.

 

No bate-papo, a cineasta Betse de Paula deu detalhes sobre o projeto maturado ao longo de 15 anos, elogiando o belíssimo trabalho da montadora Marta Luz, quem deu sentido emotivo ao turbilhão de imagens de arquivo que o filme acolhe. Também fez comentários sobre a parceria entre o cinema e televisão hoje, viabilizada via Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

 

“Marta não é uma montadora, é uma bordadeira, que organizou tudo de maneira muito bonito. Foi um filme feito com muito carinho, como foi feita toda a obra do Mario”, comentou. “Essa parceria entre o cinema e a televisão é muito importante, você contar com o apoio do FSA e fazer filmes que vão estrear nessas duas janelas, hoje ocupamos um mercado muito maior, é um mecanismo sensacional de funcionamento do cinema nacional”, avalia.

 

Sobre a intimidade de Mario Carneiro com a luz, tanto Betse de Paula, quanto a filha Beatriz Carneiro teceram comentários emocionantes. “Papai costumava dizer que gostava da luz de Deus, que a luz dele era a luz de Deus, ele tinha mania pela luz natural”, revelou a filha que, assim como o pai, abraçou as artes plásticas. “Ele faria bom uso do celular, criando um momento de reinvenção, como fez quando começou no cinema”, destacou.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Ascom/Secec)
E-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br