Governo do Distrito Federal
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16/12/20 às 21h59 - Atualizado em 16/12/20 às 22h17

“O Homem que Virou Suco” completa 40 anos ainda atual e provocador

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Texto: Alexandre Freire/Edição: Guilherme Lobão (Ascom Secec)

 

16/12/2020

22:00:00

O diretor João Batista Andrade, do clássico “O Homem que Virou Suco” (1980), acompanhado pelo protagonista principal da alegoria filmada em 16mm, José Dumont, deu uma aula magna do chamado “cinema de intervenção”, em live, realizada nesta quarta (16). O encontro virtual dentro das atividades da 53ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB) celebrou os 40 anos de produção do longa, que transita entre documentário e ficção, e os 15 anos de restauração da obra pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro (CPCB), há 42 anos presente na mais tradicional mostra da sétima arte no Brasil.

 

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A live, que também fez reverberar a defesa da Cinemateca Brasileira (SP) contra o descaso do governo federal, foi mediada pela pesquisadora, jornalista e escritora Myrna Brandão e contou com a participação do professor de cinema da Universidade Federal Fluminense João Luiz Vieira. Ele frisou a atualidade do filme de Andrade num país que discrimina o trabalhador e precariza o emprego.

 

 

João Batista, mineiro de Ituiutaba (MG), experimentou na pele as dificuldades de migrar para a capital paulista, onde foi estudar engenharia na USP no início dos anos 1960, fazendo ecos com a situação vivida pelo operário interpretado por Dumont no longa. Natural da Paraíba, cujo gentílico também expressa o bairrismo e o preconceito do país com o Nordeste, o ator nascido em Bananeiras (PB) e premiado em edições passadas do FBCB com três Candangos – um justamente por esse filme – refere-se ao “Homem que Virou Suco” como “um filme que mudou minha vida e me possibilitou carregar nas costas a história da minha gente”.

 

As intervenções do cineasta jogaram no chão esquemas cartesianos sobre o que é o cinema. Nas suas experimentações, é como se além da câmera na mão e a ideia na cabeça – binômio do Cinema Novo – houvesse também a presença do coração que, por trás das lentes, quer sacudir o espectador.

 

“Filmar a realidade é muito pouco. É preciso provocar, criar situações e colher os resultados”, formulou o mineiro que tem o jornalismo crítico no DNA. Com passagem pela TV Cultura, onde trabalhou com o amigo Vladimir Herzog (assassinado pela ditadura militar) e cevado intelectualmente pela militância no velho Partido Comunista Brasileiro (PCB) e nos Centros de Cultura Popular (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), o diretor desdenha de classificações rígidas: “Nunca pedi carteirinha nem de ficcionista, nem de documentarista. Sou um cineasta capaz de pensar”, atalha.

 

O cinema de intervenção bebe nas águas do neorrealismo italiano (com sua crítica ao fascismo) e do cinema direto francês, com a captação de sons ambientes e produção de ruídos deliberados. Ilustrativo disso é a antológica cena em que Dumont posa de cangaceiro paramentado em plena avenida paulista (ou seja, fora de qualquer contexto) e, com uma cusparada no chão, deixa a imagem do que pensa do capitalismo na meca nacional dos endinheirados.

 

João Batista contou que Dumont morou na casa dele durante o período das filmagens, quando angústias vividas pelo ator durante à noite, desafiado a improvisar nos vácuos do belo roteiro, eram seguidas de intermináveis discussões sobre como deveria desempenhar.

 

“Eu precisava de um ator com enorme capacidade de improviso, que estivesse permanentemente movido pela tensão”, contou o diretor. Entre o operário padrão que aparece no filme numa solenidade em ambiente real de fábrica ligada à poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e o trabalhador que se revolta contra a exploração e puxa a faca, apanhando e se debatendo contra as engrenagens do sistema, Dumont disse que, com o filme, ele se tornou “uma pessoa melhor”, capaz de “exigir mais de mim e dos outros”.

 

Até pelo seu caráter celebrativo, o encontro não tocou em aspectos considerados controversos da trajetória do diretor mineiro, que chegou a ser ministro do governo de Michel Temer, sucedendo Roberto Freire (PPS), em 2017, e antes disso fora secretário da administração tucana de Geraldo Alckmin em sua primeira passagem pelo Palácio Bandeirantes (2001-2006). Em tempos anteriores ele marcava sua trajetória profissional com incursão no movimento do Cinema Marginal da Boca do Lixo, também em São Paulo, onde filmou “Gamal, O Delírio do Sexo” (1969).

 

Cinemateca Brasileira

 

Coube a Mauro Domingues, arquivista especializado em preservação audiovisual, lembrar a fragilidade das políticas públicas para proteção do acervo de filmes no país, citando nominalmente a Cinemateca Brasileira. Ele participou das iniciativas do CPCB que produziram matrizes novas de filmes ameaçados de se perder, como – além do “Homem Que Virou Suco”, “Rico Ri à Toa” (Roberto Farias, 1957), “A Hora da Estrela” (Suzana Amaral, 1985) e “O País de São Saruê” (Vladimir Carvalho, 1971).

 

Ele alertou para o risco de que o país perderá filmes por falta de equipamentos adequados ao restauro, em razão da falta de investimento na área e o implacável avanço da tecnologia digital. “Hoje temos conhecimento, mas não temos nem equipamentos nem recursos”. “O Homem que Virou Suco”, clássico nacional restaurado, mostra atualidade e gera debate sobre o país que somos.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Ascom/Secec)
E-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br

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