Governo do Distrito Federal
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23/11/15 às 11h44 - Atualizado em 13/11/18 às 14h49

MuN recebe mostra de fotografia modernista

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Exposição exibe obras que compõem acervo do Itaú Cultural

A partir de 25 de novembro (quarta-feira), o Museu Nacional da República recebe a exposição Moderna Para Sempre – Fotografia Modernista Brasileira na Coleção Itaú Cultural. A inauguração tem coquetel para convidados às 19h30, e permanece para visitação do público de 26 de novembro a 3 de janeiro. Com curadoria de Iatã Cannabrava, a mostra mergulha no movimento fotoclubista brasileiro, lançado no final da década de 1930, com um conjunto de 130 obras de 29 artistas, que remontam aos anos de 1940 a 1970, quando, na esteira do modernismo europeu e americano, fotógrafos brasileiros entraram na discussão sobre os limites da arte fotográfica.

Já exibida em 11 cidades, sempre em diferentes recortes – Fortaleza, Porto Alegre, Belo Horizonte, Belém, Ribeirão Preto, São Paulo, Santos e Recife, no Brasil, além de Assunção, no Paraguai, Cidade do México, no México, e Lima, no Peru –, a mostra chega em Brasília com quase a totalidade de obras da coleção, que é composta por 138 obras. A exposição completa foi realizada no começo de 2014, na capital paulista, no próprio instituto.

Acompanhando a mostra, em programação paralela, é realizado o encontro Outras Modernidades, com o curador e o fotógrafo Luis Humberto, no mesmo dia da abertura e, o workshop Brincando nos campos do Modernismo – Um exercício de fotografia moderna em Brasília, no final de semana, com Ekaterina Kholmogorova, Cannabrava e Kazuo Okubo.

A exposição

Instalada na área central do Museu Nacional, Moderna para Sempre – Fotografia Modernista Brasileira na Coleção Itaú Cultural apresenta obras consideradas raras, como Bailarina do Balé da Juventude UNE, Rio de Janeiro – RJ, do ano de 1947, de Thomaz Farkas. A fotografia transpõe algumas características predominantes no período modernista, como a contraposição entre luz e formas, visando uma assimetria perfeita. “Esta fotografia nos leva a um passeio por luz e movimento, e particularmente lembra as bandeiras de Volpi, que na verdade não nasceram bandeiras, mas sim telhados”, observa o curador.

Quatro das sete imagens capturadas por José Oiticica Filho exibidas no Museu Nacional foram incorporadas à coleção em 2014: Triângulos Semelhantes (1949), O Túnel (1951), Composição Óbvia (1953) e O Negativo (1955). Em comum, elas expõem um forte contraste de claros e escuros e uma relação entre pessoas e espaços vazios com a geometria. Além destas, outras obras adquiridas ainda no ano passado são Utopia, de Eduardo Enfeldt, Estudo com Tambores, de Jacob Polacow, Estudo de Sombras e Autorretrato com Sombras, de Marcel Giró, Composição Moderna, de Gaspar Gasparian e, ainda, de Thomas Farkas, Energia. A mais recente fotografia adquirida, em março deste ano, é de Alberto Figueira, Decrescente.

Entre outras obras que atestam este acervo como o mais importante em registro modernista brasileiro, está Espiral (1944), mais uma de Gaspar Gasparian. Trata-se de uma imagem em que o surrealismo também característico do modernismo dos fotoclubistas desperta a atenção e remete a uma cena de cinema em preto e branco. Para citar mais algumas, um conjunto de 10 fotografias abstrato-geométricas de Ademar Manarini, que incluem Janelas II (1953), Sem título (1950), In Extremis (1950), Arquitetura (1950) e outras.

Poucas mulheres faziam parte do movimento fotoclubista. Um dos maiores nomes desta época é Gertrudes Altschul. Dela, Moderna para Sempre apresenta quatro obras, como as raras Arabescos em Branco (1960) e A Folha Morta (1953). Neste grupo de artistas da década de 1940, junta-se ainda a imagem Formas (ca. 1950), de Eduardo Salvatore, de quem vale ressaltar o importante papel no cenário fotoclubista como um dos fundadores do berço do movimento, o Foto Cine Clube Bandeirante, no ano de 1939, em São Paulo. A mostra apresenta, ainda, mais quatro obras, além das citadas acima, do catalão exilado no Brasil, Marcel Giró, 12 fotos de German Lorca, que impressionam por seu abstracionismo e 23 trabalhos de outro importante expoente do movimento, José Yalenti.

Programação paralela

Os brasilienses, além de visitar a exposição, podem participar do workshop Brincando nos campos do Modernismo — Um exercício de fotografia moderna em Brasília, na cidade que abriga obras-referência do maior expoente do modernismo na arquitetura, Oscar Niemeyer. A oficina, que acontece entre os dias 27 e 29 de novembro, é uma experiência imersiva a partir de uma falsa premissa histórica: e se o Foto Cine Clube Bandeirante tivesse nascido e se desenvolvido na capital brasileira, ao invés de São Paulo?

A partir dessa simulação, Iatã Cannabrava acompanhado do fotógrafo Kazuo Okubo, da designer Ekaterina Kholmogorova e dos participantes, desbrava o lugar como um passeio modernista do Foto Cine Clube Bandeirante pelo passado, ou melhor, pelo futuro da recém fundada, ou cinquentona, Brasília.

“Vamos romper como os modernistas romperam”, fala Canabrava. Segundo ele, a ideia é fotografar Brasília de uma forma a que as pessoas não estão acostumadas. “Não vamos tirar fotos dos ministérios, da arquitetura já vista. Talvez façamos registros até de dentro do apartamento de alguém”, explica. “Vamos brincar de modernistas na cidade dos modernistas, como se estivéssemos 50 anos atrás, mas com comportamento contemporâneo”.

Nessa brincadeira de épocas fica evidente que o tempo não é o importante, e sim, as analogias, sinapses ou simbologias que representam, a cada tempo ou espaço, sensações, frustrações e sonhos, sejam públicos ou privados. O workshop destina-se ao interessado em praticar, estudar e discutir os processos contemporâneos de criação, principalmente no que se refere ao campo das narrativas visuais.

No primeiro dia são feitos uma introdução e um passeio pela Esplanada dos “Mistérios”, no fim do dia, com exercícios de sensibilização e significação de um olhar estrangeiro. Em seguida, os participantes são convidados a ler fotolivros coletivamente. No sábado, o grupo parte para exercícios de edição e, por fim, no último dia, transformam as criações em um livro digital. “Estou animado para viver essa experiência em Brasília. A coletividade sempre gera um campo de energia e produção muito forte”, afima Canabrava.

Para participar, basta enviar uma minibiografia e uma carta de intenção para o e-mail galeria@acasadaluzvermelha.com até o dia 18. São 20 vagas. Nos dias de experimento é só ter em mãos papel e lápis para anotações, computador com os programas Photoshop ou Lightroom, Indesign e câmera fotográfica.

Mais sobre Fotoclubismo

O fotoclubismo brasileiro teve início em São Paulo, no Foto Cine Clube Bandeirante, em 1939, e se alargou para outros fotoclubes da cidade paulistana. Em geral, era composto por fotógrafos amadores que, livres das obrigações de um trabalho comercial, puderam experimentar e quebrar regras. Nesses núcleos aterrissaram artistas como Geraldo de Barros, José Yalenti e German Lorca. “Nas imagens, encontramos as buscas por formas e volumes, abstracionismos e surrealismo, em uma evidente influência das antigas vanguardas europeias”, conta o curador.

Os trabalhos destes artistas começaram pictorialistas, imitando os padrões da pintura do século XIX. Com o desenvolvimento e crescimento econômico do país, desembocaram no celeiro da fotografia moderna brasileira, a chamada Escola Paulista. “As obras parecem uníssonas porque têm forte unidade temática, divididas em dois grupos: cidades ou formas, sejam elas geométricas, elaboradas ou simétricas”, explica Cannabrava. “A partir deste momento, texturas, contraluzes, enquadramentos sóbrios, linhas, solarizações, fotomontagens, fotogramas, entre outros tópicos, passam a integrar o vocabulário criativo”, reforça.

Vale observar, também, que a maioria dos membros dos fotoclubes era de imigrantes de origem europeia ou descendentes refugiados das guerras do hemisfério norte, estabelecendo no Brasil uma produção com olhar mais otimista e de esperança no futuro, distante de assuntos sociopolíticos que predominavam nos trabalhos da época, e diferenciando-se do movimento europeu focado nas dificuldades sociais.

Para o curador, este grupo se antecipou ao atual universo dos blogs, Facebooks e Flickrs montando o que poderia ser chamado de primeiras redes sociais de que se tem conhecimento na área de fotografia. Por meio de salões, catálogos e concursos formaram uma teia internacional que divulgava a produção nos grandes centros da fotografia mundial e também do Brasil.

Sobre Iatã Cannabrava

Além de curador, é fotógrafo e agitador cultural, atualmente diretor do Festival Internacional de Fotografia de Paraty – Paraty em Foco, que existe há 10 anos. Ele também coordena o Fórum-Latino Americano de Fotografia de São Paulo, realizado pelo Itaú Cultural; é autor dos livros Casas Paulistas (2000), e Uma Outra Cidade (2009); tem fotografias integradas nas coleções MASP-Pirelli, Galeria Fotoptica, Joaquim Paiva e MAM/São Paulo e em oito livros publicados de autoria coletiva.

Sobre Kazuo Okubo

Kazuo Okubo trabalha com fotografia há 40 anos e iniciou como assistente de seu pai, Arlindo Okubo. Começou a fotografar publicidade em 1989. Desenvolve trabalhos autorais desde 2003 e em 2009 inaugurou em Brasília a primeira galeria de arte de fotografia no Centro-Oeste, A Casa da Luz Vermelha, com acervo permanente de fotógrafos. Integra coleções como a de Silvio Frota, um dos maiores colecionadores de fotografia do Brasil e faz parte do Projeto West Encounters East, da diretora Stella Holmes. Ministra workshops e palestras pelo Brasil afora, como no festival de fotografia Paraty em Foco, no estado do Rio de Janeiro, e em universidades como PUC, UnB e IESB.

Sobre Ekaterina Kholmogorova

Nasceu em Moscou e mora há sete anos no Brasil. Formada em publicidade, trabalhou como designer para diversas revistas de moda, na Rússia e no Brasil, como Vogue e Elle, entre outras. Atualmente, trabalha como designer em projetos de exposições, festivais e de fotolivros relacionados a fotografia. Há dois anos lançou sua própria marca de jóias, a Kholmogorova Jewellery, cuja identidade, como a própria artista costuma definir, traz sua alma russa e sua paixão pelo Brasil tropical.

Lista de artistas e quantidade de obras em Moderna para Sempre – Fotografia

Modernista na Coleção Itaú Cultural

1. Ademar Manarini (10)

2. Alberto Figueira (1)

3. André Carneiro (1)

4. Chakib Jabour (1)

5. Délcio Capistrano (1)

6. Eduardo Enfeldt (2)

7. Eduardo Salvatore (1)

8. Fabio Moraes Bassi (1)

9. Francisco Albuquerque (1)

10. Francisco Quintas Jr. (1)

11. Gaspar Gasparian (2)

12. Georges Radó (4)

13. Geraldo de Barros (11)

14. German Lorca (12)

15. Gertrudes Altschul (4)

16. Gunter E.G. Schroeder (2)

17. Jacob Polacow (1)

18. João Bizarro da Nave Filho (1)

19. José Oiticica Filho (7)

20. José Yalenti (23)

21. Julio Agostinelli (1)

22. Lucilio Correa Leite Júnior (1)

23. Marcel Giró (6)

24. Osmar Peçanha (4)

25. Paulo Pires (20)

26. Roberto Marconato (1)

27. Rubens Teixeira Scavone (4)

28. Thomaz Farkas (5)

29. Tufi Kanji (1)

Moderna Para Sempre – Fotografia Modernista Brasileira na Coleção Itaú Cultural

Onde: Museu Nacional do Conjunto Cultural da República

Quando: 25 de novembro (abertura). Visitação: 26 de novembro a 3 de janeiro de 2016, de terça-feira a domingo, das 9h às 18h30.

Entrada franca

Classificação indicativa: livre