Governo do Distrito Federal
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2/07/12 às 12h27 - Atualizado em 13/11/18 às 14h37

Museu da República expõe arte do bordado inspirada em Cândido Portinari

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O Texto de apresentação da mostra “Coração em Paz” começa com uma frase tão impactante e poética quanto os desenhos e pinturas de Cândido Portinari: “Uma pintura que não fala ao coração não é arte, porque só ele a entende. Só o coração poderá nos tornar melhores, e é esta a grande função da arte”.

Certamente, ao pronunciar tais palavras, o pintor nascido em uma fazenda de Brodowski, no interior de São Paulo, não imaginou que elas pudessem soar como uma profecia. E mais: que a profecia se cumprisse muitos anos mais tarde pelas mãos de uma família de artesãos mineiros.

Pois o que se vê nos quadros bordados pelo grupo Matizes Dumont é exatamente a tradução do que Portinari pensava sobre a pintura. Ao fixar o olhar sobre a primeira tela, o espectador já não busca explicações sobre o que ela diz. E não busca por um motivo simples: elas já chegaram ao seu coração.

A partir daí, observar o restante dos trabalhos é quase um exercício de levitação tal a magia que os quadros exercem sobre cada um que os aprecia.

A a partir dos estudos de Cândido Portinari para os painéis Guerra e Paz, pintados entre 1952 e 1956. A obra foi uma encomenda do governo brasileiro para presentear a Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York.

De acordo com Marilu Dumont, “os painéis da Paz configuram os afazeres cotidianos como a identidade da paz.” 

O texto de apresentação da exposição “Coração em Paz – Bordados para os painéis Guerra e Paz” destaca: Reafirmar a existência comum será o principal traço estético do grupo Matizes Dumont, que traz para seus bordados a riqueza e a força do dia-a-dia; expõe à apreciação pública a delicadeza da vida doméstica e o espaço feminino.

O pintor de Brodowski valoriza as figuras de sua terra, consideradas miúdas pelo senso comum. As bordadeiras de Pirapora-MG revitalizam a arte do bordado, por muito tempo desvalorizada, em função de ser exercício do feminino.

Se o pintor se valeu do traço lírico e expressionista, do uso da cor e do cenário natal para essa valorização, o grupo Matizes Dumont tem no trabalho coletivo o bordar, compartilhado por três gerações da mesma família, e no conceito de bordar como ato identitário os elementos que conferem a um labor sem repercussão o estatuto de fazer artístico.

Alcançado esse patamar, o grupo volta-se a um projeto pedagógico, cujo objetivo reside na prática constante da escuta e do olhar sensível, caminhos para autoria, fundamental, na sociedade contemporânea, para a humanização das relações socais.A releitura de Portinari pelos bordados é, nesse contexto, a mais adequada possível.

Trazido ao Brasil por imigrantes de diferentes origens, o bordado pode ser caracterizado ao mesmo tempo como tecitura, urdidura, cor, movimento, forma, imagem. E enquanto imagem, o Grupo Matizes Dumont fez do bordado uma forma de “fazer com arte” nova expressão estética, uma expressão densa e profunda da alma e criatividade humana enquanto linguagem imagética.

Em alguns pontos, a linha do trabalho de Cândido Portinari e do Grupo Matizes Dumont se encontram e se entrelaçam.

Portinari realizou uma arte que fazia a síntese social do Brasil em busca da paz. Antes dele, artista plástico algum reconheceu a riqueza da brasilidade e a dignidade e beleza de negros, agricultores, crianças pobres, mulheres trabalhadoras cheias de filhos. O artista dedicou sua vida – trabalho e militância política – a lançar um olhar humanizador sobre essas condições e relações sociais, olhar revelado principalmente por suas pinceladas geniais.

O grupo Matizes Dumont ampliou o significado da arte anônima de bordadeiras do país e do mundo ao longo dos tempos: pontos criados com maestria se unem para formar telas, para ilustrar livros, para encantar olhares, para retratar o Brasil, sua gente, suas cores, suas brincadeiras, sua natureza. E ousando na arte do bordado, utilizado como ferramenta e linguagem, leva a paz e a dignidade para grupos de pessoas em ações de mobilização social. O bordado é ensinado pelas artistas, que são também educadores, arte-educadores, psicólogas e ambientalistas, em projetos de inclusão social, para grupos que se unem para aprender um novo ofício, para repensar suas ações e relações, para restabelecer a saúde individual, do grupo, da natureza. Porque arte e sanidade nascem na mesma fonte, e porque sanidade, harmonia e paz são irmãs gêmeas.

A arte popular possibilita puxar o fio e contar a história de vida de um povo. Forja, molda, constrói e transforma no aqui e agora com a força da ação conjunta, tecida: os dons e os valores se entrelaçam como os fios no tecido bordado entre e dentro do Coração em Paz.

Unir as duas maestrias é uma homenagem à Paz que se conquista com a ajuda incomparável da arte.

Serviço:

Exposição “CORAÇÃO EM PAZ – Bordados a partir dos estudos de Cândido Portinari para os painéis Guerra e Paz”.

De 29 junho a 29 de julho no Museu da República

Horário de visitação: de terça a domingo, das 9h às 18h30

Entrada: Franca


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