Governo do Distrito Federal
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17/12/20 às 22h11 - Atualizado em 17/12/20 às 22h18

Mesa do Festival de Brasília debate preservação do acervo audiovisual

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Texto: Alexandre Freire. Edição: Guilherme Lobão

 

17/12/2020
22:11:00

 

Uma mesa do 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB) discutiu nesta quinta (17) a necessidade urgente de políticas públicas para preservação de acervos audiovisuais, tanto no que tange ao passivo analógico como a avalanche da produção digital nas redes, território não cartografado, como frisou a mediadora do encontro, Débora Butruce, presidente da Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA).

 

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O painel contou com especialistas do Rio Grande do Sul, do Norte, do Rio de Janeiro e de Brasília, num arco representativo da crise que afeta toda a federação e tem seu epicentro em São Paulo, com a ameaça que paira sobre o acervo de 250 mil filmes da Cinemateca Brasileira, denunciada pelos participantes.

 

A síntese da conversa de quase duas horas, com mais de 60 pessoas nos momentos de pico, considerou a necessidade de fortalecimento de uma rede regional de preservação desses documentos. Além disso, o processo deve ter em vista o aprimoramento na formação de agentes da cadeia produtiva do audiovisual, a sensibilização da sociedade civil para o risco de que o país perca tesouros do seu patrimônio cultural imaterial e pressão sobre agentes públicos para que mais recursos sejam destinados a essa área.

 

“Política cultural não se faz com discurso, mas com dotação orçamentária”, sentenciou o coordenador de Cinema, Vídeo e Fotografia da Secretaria da Cultura de Porto Alegre e diretor da Cinemateca Capitólio, Marcus Mello.

 

A cinemateca sulista, cuja missão é inventariar e preservar o repertório audiovisual riograndense, corre o risco de ser terceirizada. Inaugurada em 2015, depois de uma reforma que se arrastou desde 2004, ao sabor de mudanças de governo na cidade, no estado e em Brasília, a Capitólio dispõe de algum acervo da produção de filmes entre 1980 e os anos 2000, mas pouco antes disso. Mello também denunciou a situação da Usina do Gasômetro, que tem sala de cinema. O complexo está fechado e sem perspectivas de abertura. “Não preservar acaba sendo uma política porque os filmes incomodam muita gente”, acredita.

 

Na outra ponta do país, a professora do Instituto Federal do Rio Grande do Norte, Mary Land Brito, coordenadora das áreas de produção audiovisual e produção cultural, disse que a instituição não tem recursos para trabalhar com preservação e, para mobilizar a sociedade, investe em extensão, com exibição de filmes seguidos de debate e a criação de uma original plataforma, a Cinemateca Potiguar, ou “Cine Poty”, como é mais conhecida, na qual diretores de cinema locais se cadastram e sobem suas produções, num “meio de campo” que movimenta a comunidade local. A aposta na difusão dá resultados, como atesta uma exibição de “Bacurau” para duas mil pessoas no povoado de Barra-Parelha em 2019.

 

Mas mesmo uma iniciativa tão original como a do Cine Poty, pois o inventário é o primeiro passo da preservação, acaba encontrando resistência mesmo entre os produtores, que frequentemente veem a plataforma como “cemitério de seus filmes e não como berçários”, teoriza. Brito dirigiu os documentários “Pipa, praia em poesia” (2004), através do Revelando os Brasis, que também foi seu tema de mestrado, e “Sangue do Barro” (2009), fomentado pelo DOCTV IV.

O programador do Cine Brasília, Rodrigo Torres, dividiu com o público ações como gerente do equipamento da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec). Em 2019, quando assumiu o posto, mobilizou servidores e organizou material que estava entulhado no prédio desenhado por Oscar Niemeyer, juntando pôsteres de filmes exibidos no local, assim como catálogos de mostras que ganharam a tela do templo do cinema do FBCB.

 

Numa parceria com o Arquivo Público do DF, esse material foi planificado e cópias de 40 filmes estão expostas na recém-inaugurada estação de metrô da SQS 106, que ostenta o nome do patrimônio tombado da sétima arte.

 

Os catálogos serão organizados pela Biblioteca Nacional de Brasília (BNB), num acordo negociado por Torres, e há ainda o projeto embrionário de um inventário da produção fílmica da jovem capital, que completou 60 anos no meio da pandemia do Coronavírus, e segundo ele, já perdeu muito material.

 

Coordenador da Cinemateca do MAM e curador da temática preservação da Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), José Quental lembrou que o MAM pertence à iniciativa privada, que deve ser vista como parte importante de “um ecossistema” que proteja o acervo audiovisual dos desmandos oportunistas de governos ou do franco desapreço pela cultura, como o governo federal no caso da Cinemateca Brasileira demonstra.

 

Também coordenador técnico da Coordinadoria Latinoamericana de Archivos de Imágenes en Movimiento (CLAIM) e Membro do Grupo de Estudos sobre Cultura, Representação e Informação Digitais (CRIDI, UFBA), esse historiador com mestrado e doutorado em cinema, acredita que uma rede de entidades regionais voltadas para a preservação pode ser uma saída para “enfrentar os leões” que cercam o setor com suas falas truculentas.

 

Enquanto os palestrantes se expressavam, no bate-papo da plataforma de reunião, uma audiência atenta reverberava em comentários e perguntas a importância do encontro e das ideias que estão no DNA do Festival de Brasília, com sua história de resistência e crítica. Os participantes renderam homenagem à professora Miriam Paula Manini, docente da Faculdade de Ciências da Informação da UnB, falecida em outubro no meio da desastrosa gestão da pandemia.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Ascom/Secec)
E-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br