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16/12/20 às 16h09 - Atualizado em 16/12/20 às 16h13

Ken Loach evoca poder transformador social do cinema no FBCB

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Texto: Guilherme Lobão (Ascom Secec)

 

16/12/2020
16:10:00

 

Discutir cinema não é se limitar às narrativas vistas na tela. E Ken Loach, o célebre e premiado diretor britânico convidado para o 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, propôs exatamente isso na mesa-redonda “O Cinema como Ferramenta Política”. Ele participou do encontro nesta manhã de quarta (16), com mais de 250 espectadores, ao vivo, no canal do YouTube da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF (Secec).

 

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O secretário de Cultura, Bartolomeu Rodrigues, abriu o debate informando a Ken Loach sobre o perfil do festival e a conjuntura nacional. “Este é o festival mais politizado deste nosso grande país. E vivemos uma dupla crise: a sanitária, que afeta as artes geral, e uma crise da cultura. Há um movimento planetário que exige de todos nós uma mobilização para que valores das artes não sejam massacrados por posições que negam a própria história. Estamos em uma luta sem trégua”, declarou.

 

 

Duas vezes agraciado com a Palma de Ouro de Cannes, Loach conversou com o diretor artístico do festival, Silvio Tendler, e a mediadora, jornalista e documentarista Flávia Guerra, sobre a importância de se levantar contra a onda ultraconservadora de extrema-direita. “É um momento crítico sanitário, pela pandemia; crítico pelo meio ambiente, que estamos destruindo; e politicamente crítico, porque a exploração da classe trabalhadora cresce exponencialmente no mundo todo”, denuncia.

 

O cinema engajado de Ken Loach lançou luz a este tema nos seus filmes mais recentes, “Eu, Daniel Blake” (2016) e “Você Não Estava Aqui” (2019). “É particularmente claro o nível de exploração do trabalhador neste tempo em que você precisa ser autônomo e se submeter a condições precárias de emprego”, observa. E a pergunta a ser feita é: o que o cinema pode fazer? “Bem, às vezes não muito. Podemos apenas perguntar e indicar uma questão, uma resposta e tentar subverter a ordem estabelecida. E é o que nós fazemos nos filmes”, justifica, referindo-se ao seu trio que forma com a produtora Laura Obiols e o roteirista Paul Laverty.

 

No debate ele argumentou didaticamente sobre como não é possível separar cinema de política e ideologia. “Para poder contar uma história, para entender as pessoas, é preciso entender o contexto em que elas vivem. E você não entende o contexto sem entender a política sob a qual elas estão submetidos”, diz.

 

“Acho que não podemos entender o que ocorre no mundo sem ler ao menos um pouco de Marx. Porque o fundamento da luta de classes é demonstrado ano após ano. Temos uma onde da extrema direita dizendo que representam a voz do povo, enquanto representam a voz dos mandatários. Temos isso aqui no Reino Unido, com o Trump nos Estados Unidos e seu que vocês tem também no Brasil… também em Israel e na Hungria”, reconhece.

 

Para o diretor, a missão do cinema engajado é de trazer uma verdade sobre a vida e os arranjos conjunturais e buscar a liberdade com o enfrentamento do projeto capitalista neoliberal. “A liberdade sobre a qual falamos é a liberdade de não passar fome, de viver em paz e em segurança. Mas a Declaração dos Direitos Humanos está sendo massacrada. Como podemos lutar contra isso? Fazemos o que podemos com o cinema, mas é uma luta constante. É comum, portanto, acusar o vandalismo feito por quem defende os direitos humanos. Mas a violência é a violência do opressor e não do oprimido”, defende.

 

PROCESSO CRIATIVO

 

Quando se fala no cinema político de Ken Loach, talvez seja pela abordagem sempre muito incisiva das questões sociais e das fissuras promovidas pelo sistema capitalista em seus filmes. No entanto, o cineasta abriu para o público na mesa redonda virtual como que este não é um traço apenas narrativo em sua produção. “Até a escolha dos atores é muito crítica. As pessoas que elencamos são muito próximas aos personagens. De um modo, você revela a pessoa real interpretando aquele papel. A câmera tbm tem um papel fundamental de observador, usada como as lentes do olho humano. São julgamentos assim, técnicos, e em um sentido estéticos, que têm como objetivo levar verdade no cinema”, detalha.

 

Em resposta a alguns dos comentários do público, sobre a aproximação de seu cinema ficcional de um documentário, Loach aponta para distinções, apesar de indicar objetivos semelhantes. “O desafio do documentário é ser coerente e relatar algo que só aconteceu aquela vez. Você a vê e some. É uma técnica muito diferente. Quando você constrói uma cena, você tem várias câmeras, você repete várias vezes. Mas, no final, o sentido de autenticidade é o que buscamos para que as pessoas entrem naquela história”, diz.

 

Ao final, o diretor britânico aponta sua crítica afiada para a indústria cinematográfica. A mediadora Flávia Guerra lembrou que Loach costuma comparar a Netflix ao McDonald’s. “Porque filmes são vistos como commodities. Sempre há aqueles que enxergam o filme para ganhar dinheiro e aqueles que o veem como lugar da comunicação, para compartilhar histórias, narrativas e tudo mais. E sempre tivemos essa contradição. Enquanto tivermos esse sistema econômico, os filmes dos serviços de streaming ou dos multiplex se tornarão commodities e não vamos poder ganhar esta guerra. O socialismo é a única possibilidade. Não podemos explorarmos uns aos outros. Isso não é sustentável”, ensina.

 

Para Ken Loach, a ideia de cinema como forma de expressão coexiste de modo muito difícil com o cinema comercial. “Com o avanço da tecnologia, a gente vê as grandes empresas colocando filmes, o que eles chama de produtos, no streaming e o cinema como lugar pode desaparecer para a grande indústria. Isso pode significar que se o cinema comercial falhar o cinema independente da América do Sul, do extremo oriente, do mundo todo vai sobreviver. Há uma esperança”, postula.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF
e-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br