Governo do Distrito Federal
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24/08/15 às 12h55 - Atualizado em 13/11/18 às 14h49

Juventude que sonha – Poran Potiguara

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Poran Potiguara, de 25 anos, tá no sétimo semestre de Engenharia Florestal na Universidade de Brasília (UnB). Atualmente mora na Asa Norte, mas nasceu na Paraíba, no município de Baía da Traição, cujo nome indígena seria Akayutibiró (terra de caju de sabor desagradável, caju azedo), sendo um autêntico indígena Potiguara. Se mudou pra Brasília aos 19 anos, e só saiu da aldeia pra estudar. Entrou pelo convênio que existia entre a Funai-Fundação Nacional do Índio e a FUB – Fundação Universidade de Brasília, que foi firmado em 2004. Mas, estudante aplicado que é, queria se testar. “Depois eu fiz outro vestibular da UnB, porque todo mundo falava que o vestibular era uma coisa absurda, super competitivo, fiz o vestibular e passei de novo. Tive duas entradas, praticamente”, diz. Para ele, a dificuldade maior não é entrar, e sim, permanecer na Universidade, “porque as universidades hoje, falo no Brasil em geral, são um ambiente super competitivo, que não te compreende por ser diferente, por vir de um lugar diferente, então o professor chega na sala de aula e acha que você é igual a todo mundo, que tem o mesmo conhecimento de todo mundo. Não se trabalha os diferentes tipos de saberes. Sobreviver num lugar desse, resistir, permanecer, é a maior dificuldade, o maior tabu de todos os indígenas hoje do Brasil”.

Poran estudou até o ensino médio na aldeia. Mas não foi sempre assim. Na época de sua sétima série (oitavo ano), não havia essa série disponível. Ele e outros indígenas se mobilizaram e conseguiram levar não apenas essas séries, mas também, o Ensino Médio. “Brigamos pra ter oitava série na época, brigamos pelo médio e conseguimos. Nosso povo tem hoje seis escolas a nível médio. Basicamente, os Potiguaras estudam todos na aldeia e só depois vão estudar na cidade, nas universidades”, comemora. Na UnB, além de estudar, participa de atividades de pesquisa, extensão, e do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC), com o objetivo de devolver, de alguma forma, o conhecimento ao seu povo. “Agora mesmo eu terminei um trabalho sobre o uso medicinal e terapêutico do uso do rapé nas comunidades Potiguara, no meu povo. É uma forma de dizer pra Universidade que nós fazemos pesquisas e que a gente tá aqui não apenas pra pegar o diploma”, declara. “Eu acho que o erro de qualquer estudante é só passar por ela, é só entrar, ir pras aulas, aprender o que o professor passou, às vezes decora, faz a prova, conseguiu sua nota, pegou seu diploma, acabou. Você não consegue absorver muito da universidade e a universidade não consegue absorver muito de você. Então não há troca. O nosso intuito aqui também é esse”, complementa.

Ele explica que o estudante indígena tem dificuldades a mais em relação aos demais: “adaptação, você vem de uma realidade totalmente diferente, lugar diferente, e aqui tudo é controlado, hora é controlada, se não acordar tal hora não chega em tal hora, se não conseguir sair tal hora não vai conseguir almoçar… a questão também de se adaptar ao ritmo de estudo, aquele ritmo da universidade, da cidade, aí você tem que estudar o dobro. Porque você vem de um ensino médio que é público, do interior do interior. O Brasil tem essa deficiência ainda né? O público da cidade é diferente do público do interior e do público da aldeia também e a universidade não reconhece isso. Então você tem que estudar muito, o dobro de todo mundo, e também fazer política, você não pode simplesmente entrar aqui e ser invisibilizado pelo sistema, ser invisibilizado pela sociedade, você tem que entrar e tem que bater no peito, ‘eu sou indígena, saí lá de uma aldeia do Amazonas, de uma aldeia da Paraíba, de uma aldeia do Rio Grande do Sul, e tô aqui por mérito meu mas uma luta acumulada de muitos líderes que lutaram por minha presença no Ensino Superior hoje’”.

Poran lembra também a importância de abrir o espaço para mais grupos sociais minoritários no Ensino Superior. “A gente não pode simplesmente usar essa vaga como uma coisa passageira, a gente tem que fazer política, tem que garantir que outras pessoas virão também acessar essa mesma vaga que eu, preciso garantir que a pós-graduação também abra esses espaços para que eu possa adentrar, eu, os meus colegas, negros, quilombolas e tantos outros que necessitam de fato, para que possa haver um reparo educacional no Brasil”, destaca.
Seu sonho passa por essa reparação histórica para a população indígena, um sonho coletivo: “são muitos sonhos, mas acho que o maior de todos é que o Brasil pudesse enxergar mais os povos indígenas na sua essência, que tirasse a visão do índio de 500 anos atrás, do índio congelado, do índio romântico da [obra] Iracema, e de tantos outros. O sonho na verdade é esse, que o Brasil aceite mais, respeite mais os povos indígenas. Tem uma frase do movimento indígena da década de 1980 que diz assim: ‘você pode ser quem você é sem eu deixar de ser quem eu sou’. Se o Brasil entender essa frase ele vai estar realizando o meu sonho e o sonho de muitos indígenas também, que é um sonho coletivo, a gente não tem que sonhar sozinho, tem que sonhar na coletividade”.

Este foi o último relato da nossa série “Juventude que sonha”, mas sabemos que a juventude não para de sonhar, e gostaríamos de saber qual é o seu sonho. Conta pra gente! Poste sua foto com a hashtag?#?juventudequesonha? e vamos postar seu relato aqui, pra que mais pessoas possam conhecer, e, quem sabe, até ajudar a realiza-lo. Vamos sonhar juntos?