Governo do Distrito Federal
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24/08/15 às 12h53 - Atualizado em 13/11/18 às 14h49

Juventude que sonha – Daiane Rocha

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Daiane da Rocha vai completar 27 anos no outro domingo, dia 30. Natural de Minas Gerais, mora em Brasília há 3 anos, depois que reencontrou o pai. Mas até o direito de falar que “mora” em algum lugar é algo novo pra ela. “Hoje eu tenho orgulho de falar que eu moro, antes eu não podia falar isso, porque não tinha um local onde morar. Hoje eu moro aqui em Sobradinho, em Brasília, na Rota do Cavalo, no acampamento cigano”, diz a orgulhosa cigana da etnia Calón. “Aqui no Brasil são três etnias: Sinti, Rom e Calón. Calón é a que tem a maior quantidade de ciganos no Brasil, e eu sou da etnia Calón, cigano que mora de barraca, cigano cavaleiro”, explica com brilho nos olhos e um largo sorriso.

“A gente luta muito para que nossos direitos sejam garantidos, porque até a gente conseguir essa área aqui, foi depois de muita luta”, declara, lembrando da vitória mais recente do grupo: a doação das terras onde estão acampados pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU). De acordo com Daiane, foi a primeira terra na América Latina a ser doada pelo Governo Federal para a cultura cigana. São 65 pessoas dividindo a área, para a qual todos já têm planos grandiosos: “a gente tá querendo formar um Ponto de Cultura Cigana. A gente já conseguiu a terra, que era o mais difícil, agora o meu sonho é esse, poder ver aqui essa cultura ir pra frente porque ela não pode morrer. A gente já tem o projeto, é o sonho da gente ver esse Ponto de Cultura, porque isso vai ajudar as crianças, isso vai fazer valer o Estatuto da Criança, da Juventude, do Idoso, só assim pra fazer valer, com esse ponto de cultura aqui dentro, porque direitos básicos hoje não estamos tendo aqui”.

Daiane é secretária-geral da Associação Nacional das Etnias Ciganas do Brasil (ANEC), que reivindica melhores condições de vida para a comunidade cigana. Atualmente, a principal demanda é de estrutura para seu acampamento, principalmente uma tenda para que possam ser realizados cursos, oficinas e atividades educacionais e culturais. Além disso, outra necessidade urgente é por banheiros – o acampamento não tem nenhum. “Estamos em uma situação de vulnerabilidade social. Precisamos de um banheiro para que as crianças e os adultos não tenham mais problemas de saúde. Pra que os adultos não tenham mais que sair correndo pelo mato ou pedir pra uma vizinha se ela estiver em casa”, diz, constrangida.

A primeira conselheira de origem cigana do Conselho de Juventude do Distrito Federal (Conjuve-DF) explica que sofre muita discriminação. Daiane gostaria de trabalhar com a cultura cigana, suas roupas coloridas, sua dança, suas músicas, porém, por conta dessa discriminação, o grupo não consegue renda própria dessa forma. Por isso, atualmente, Daiane e outros integrantes de sua família vendem pano de prato. “Quando a gente vai vender, aborda as pessoas na rua, ou bate palma em alguma casa, elas se assustam porque a gente ta vestida com uma roupa cigana. Então, na verdade, eu tenho que me fantasiar de uma roupa que não é a minha, apesar de achar muito bonita a roupa das ‘gajins’ (mulheres não-ciganas), eu tenho que me vestir de um jeito que eu não sou, de um jeito que eu não quero, pra poder vender algum pano de prato, e por isso a gente sofre muito”, exemplifica.

Seu sonho é continuar lutando pelo seu povo e ver o Ponto de Cultura Cigana funcionando, pra que, com mais informações disponíveis, o preconceito e a discriminação diminuam: “tenho duas filhas, e meu sonho é que elas não tenham que passar por tudo que eu passei. Falo elas representando todas as criancinhas desse acampamento. Sabe, é muito revoltante você ter que esconder sua cultura, não falar que é cigana pra não ser discriminada na escola, na rua… Por exemplo, eu tô numa fila, sempre tem alguém que fala: ‘ei, mas cigano não rouba? Minha vó falava que cigano roubava’. Só que eles mexem com a pessoa errada, porque eu faço questão de falar com a pessoa na mesma altura, sobre quem somos nós. A pessoa acaba ficando envergonhada, porque se eles tivessem pelo menos um pouco de cultura e informação, não iriam fazer isso. Já que o nosso país é tão diverso, acho que isso devia ser mais explorado, deviam levar mais informação pra sociedade, porque é o fato de desconhecer que leva ao preconceito. Então eu acho que é preciso cartilhas, informação, divulgação na TV, e sempre mostrando quem somos, de onde viemos. Meu sonho é de dias melhores, é ver um Ponto de Cultura aqui dentro desse acampamento”.

E o seu sonho, qual é? Conta pra gente! Use a hashtag?#?juventudequesonha? e participe!