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20/12/20 às 22h26 - Atualizado em 20/12/20 às 22h27

Festival de Brasília resgata vida e obra de Fernando Coni Campos

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Texto: Guilherme Lobão

 

20/12/2020

22:27:00

 

A segunda parte da mesa virtual O Cinema Independente e de Invenção Ontem e Hoje, realizada no contexto das atividades paralelas do 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, lançou luz a um nome pouco lembrado no cânone da vanguarda cinematográfica brasileira: o diretor Fernando Coni Campos (1933-1988).

 

 

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A partir do seu clássico “O Mágico e o Delegado” (1983) em exibição na Mostra Paralela On-line do festival, a mesa passou por toda a trajetória do diretor, muito associado ao cinema de invenção e de realismo fantástico, exibiu trechos de seu filme e ainda permitiu um momento antológico para os anais do Festival de Brasília: com a voz muito afinada, a atriz Tânia Alves, protagonista do longa, cantou “Alcaçuz”, acompanhada pelo violão de Rubinho Jacobina, compositor da trilha sonora.

 

Entre trechos das produções mais icônicas de Coni e lembranças afetivas por parte da equipe ali presente, a mesa se tornou uma grande homenagem poética ao cineasta, com mediação do curador da mostra, Cavi Borges, dos cineastas Joel Pizzini e Pedro Cezar, o crítico Ruyu Gardnier e o diretor de fotografia Luís Abramo.

 

Pizzini abriu a sessão com uma outra homenagem, infelizmente mecessária, à memória de Nicette Bruno, vitimada pela Covid-19 neste domingo (20). A atriz, iniciada em 1948 no teatro, aos 15 anos de idade, foi uma das entrevistadas do documentário que Pizzini finaliza neste momento sobre o ator e diretor cênico polonês radicado no Brasil Zbigniew Ziembinski (1908-1978).

 

De volta ao eixo principal do debate, a figura do cineasta Fernando Coni Campos foi celebrada por seu pioneirismo em evocar uma proposta de linguagem muito versátil e nada ortodoxa, mesmo trabalhando com o cinema de gênero, como em “O Mágico e o Delegado” e “Viagem ao Fim do Mundo” (1967), de influência machadiana. “É um dos filmes mais inclassificáveis do cinema brasileiro como um todo, porque ele tem um componente de uma certa introspecção do cinema novo, quanto do absurdismo… de um cinema pop marginal”, apontou Gardnier.

 

Para o crítico, todos os filmes do Coni são muito mais que um slogan, por isso de difícil classificação. “É preciso reconstruir o gosto por ver este filme e contá-lo em toda particularidade poética que existe em cada um deles (dos filmes)”, aconselhou.

 

Ao lembrar o estilo peculiar e visionário de Coni, Tânia Alves brinca que se ele estivesse vivo provavelmente recorreria à tecnologia de forma ímpar. “Se o Fernando estivesse entre nós agora ele ia incorporar efeitos especiais. Imagine a cena do mágico na feira com efeitos?”, divertiu-se.

 

Em sua opinião, Coni traduz o cinema de invenção. “É um reinventar-se constante. Os geniais não podem ser colocados em nichos. Ele não é refém de um estilo, de uma marca. Criatividade tem que ser assim: completamente livre”, descreveu.

 

Ao se discutir a obra de Coni, a conversa abraçou duas questões centrais para a produção independente do cinema de invenção, caracterizado por experimentos mais ousados de linguagem e liberdade poética. A primeira delas é a distribuição e a segunda, mais urgente, de preservação e restauração.

 

Pedro Cezar, cuja dissertação de mestrado analisou materiais analógicos de acervo cinematográfico, percebeu a relevância de se investigar as matrizes de suporte audiovisual para recuperação e preservação de acervo.

 

“As películas são as primeiras matrizes. Depois de um tempo foram percebendo a importância e fazendo equipamentos de resgate, que hoje não há, para fitas magnéticas”, constatou.

 

O fotógrafo Luis Abramo emendou a preocupação ao entender que o suporte físico dos filmes de Fernando – e, por extensão, do acervo cinematográfico brasileiro de um modo geral – precisa de cuidados.

 

“Tão importante quanto restaurar é construir o olhar sobre os filmes do Fernando. Eles foram muito estigmatizados. A gente está lutado para colocar na estante novamente, para que sejam vistos. A gente quer restaurar os filmes, está uma luta louca”, confidenciou.

 

Como conclusão, o cinema de invenção visto a partir do microcosmo da obra de Coni se apresenta não só como um olhar para o passado, mas em preservar a memória para formação de gerações futuras em nome da criatividade.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Ascom/Secec)
E-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br

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