Governo do Distrito Federal
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15/12/20 às 22h43 - Atualizado em 16/12/20 às 2h16

Festival de Brasília abraça a Cinemateca e denuncia o risco de perda da memória

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Texto: Alexandre Freire. Edição: Sérgio Maggio (Ascom Secec)

15.12.20

21:15

 

Daniel MarquesO Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB) foi formalmente aberto, na terça-feira (15.12), com uma “live” dentro da melhor tradição de sua história: combinando cinema e política de resistência ao desmantelo do governo federal contra a cultura.

 

Impedida de repetir seus famosos e marcantes encontros físicos com o irrequieto e combativo público, a 53ª edição do FBCB começou com mesa virtual de nomes representativos do segmento audiovisual, reunidos em torno da bandeira de defender a Cinemateca Brasileira como repositório da memória e da identidade cultural do país.

 

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Estavam lá Cacá Diegues, que prefaciou a live, Ana Maria Magalhães, Silvio Tendler, Eduardo Escorel, Vladimir Carvalho, Aurélio Michiles e Roberto Gervitz, que mediou o encontro. O secretário de Cultura e Economia Criativa (Secec), Bartolomeu Rodrigues comparou a realização desta edição do mais longevo festival de cinema do país como “um trabalho quase de guerrilha”.

 

Nityama Macrini

Bartolomeu Rodrigues. Foto Nityama Macrini

“Aqui em Brasília sentimos mais de perto que existe um avanço de forças para impedir que a cultura faça parte da construção do país”, disse o titular da pasta.

 

“Não podemos ensarilhar as armas”, concordou Vladimir Carvalho, que lembrou seu esforço particular em criar a Fundação Cinememória na capital federal, inspirado no exemplo da Cinemateca Brasileira.

 

CINEMATECA É FONTE MEMORIAL

O curador do FBCB, Sílvio Tendler, diretor de clássicos como “Os Anos JK” (1980) e “Jango” (1984), afirmou que esses filmes não teriam sido possíveis sem o acervo da Cinemateca, local obrigatório para pesquisa de material para produção de documentários – que é uma das marcas do Festival em 2020.

 

Ele transmitiu ao vivo um recado de Amir Labaki, curador e criador da mostra “É Tudo Verdade”, que acompanhava a “live”. “Amir dá os parabéns por esse momento histórico. Viva a Cinemateca, vida longa ao Festival de Brasília”, registrou o curador do FBCB.

 

Tendler lembrou que, em outras discussões de cineastas, a defesa da cultura tem sido equiparada, em importância, à vacinação da população contra o Covid-19. Nos dois casos, o futuro dependeria da preservação – num caso da memória, no outro do cuidado com as pessoas. Ele denunciou “a política de governo de perseguição à arte e à cultura”, tema que foi repisado por outros participantes à medida que a noite ganhava corpo num encontro de duas horas.

 

Crédito: Agência Brasília

Cacá Diegues

O cineasta Cacá Diegues, diretor de “Xica da Silva” (1976) e “Bye Bye Brasil” (1979), afirmou que o cinema brasileiro vive “o momento mais difícil de sua história”, marcado pelo paradoxo: a um tempo, ser referência mundial em diversidade e qualidade, em outro, estar ameaçado de profundos revezes pelo descaso do governo federal. Um deles, a razão desse encontro: o estado de abandono da Cinemateca Brasileira, em São Paulo, fechada e correndo o risco de perder um acervo de mais de 250 mil filmes.

 

Cacá Diegues lembrou que “governos em geral têm medo da cultura”. Destacou, entretanto, neste governo federal, a deliberada tentativa de “eliminar a manifestação do pensamento brasileiro”, ameaça que comparou ao desmatamento da Amazônia, estimado em um quinto da cobertura florestal.

 

REPOSITÓRIO CORRE RISCOS

Ana Maria Magalhães

A atriz, diretora, produtora e roteirista Ana Maria Magalhães lembrou da valorização da restauração de filmes antigos na Europa, a exemplo da  “Cineteca di Bologna/L’Immagine Ritrovata”, para argumentar que a Cinemateca Brasileira é uma fonte da identidade que o país aos trancos ainda busca construir. O montador, diretor de cinema e professor brasileiro

 

Eduardo Escorel revelou-se preocupado com o futuro do repositório da filmografia nacional diante das adversidades políticas que o país enfrenta e, no seu entender, das perspectivas pouco otimistas dos anos adiante: “Temos uma longa tradição em descuidar de nosso patrimônio material e imaterial”.

 

O diretor amazonense Aurélio Michiles, especializado em documentários, com trabalhos em cinema e televisão tendo como foco a região e os povos amazônicos, ressaltou que a Cinemateca Brasileira é um local que preserva não apenas latas de nitrato de celulose, mas a “mágica do cinema”. Tal mágica poderia ser expressa no fato de que cada filme acondicionado lá, por se constituir em uma página de nossa história, independentemente de seu gênero, deixa de ser ficção para se tornar parte de um grande documentário.

 

O diretor e mediador Roberto Gervitz participa diretamente em São Paulo, junto com outros grupos e entidades da sociedade civil, na luta pela defesa da Cinemateca Brasileira. O documentarista, que estreou na ficção como diretor de “Feliz Ano Velho (1987)”, baseado no romance de Marcelo Rubens Paiva, deu informes da situação do prédio onde funcionou o antigo Matadouro Municipal de São Paulo, fundado em 1946, quando foi montado o Segundo Clube de Cinema de São Paulo. O acervo sofreu quatro incêndios ao longo dos anos, motivados por autocombustões do nitrato de celulose, elemento instável.

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF

e-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br