Governo do Distrito Federal
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6/09/19 às 12h21 - Atualizado em 6/09/19 às 16h46

Exposição que mostra arte, vida e trabalho da mulher Kayapó atrai grande público na abertura

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Mostra reúne rico artesanato para venda e painéis didático-ilustrativos no Memorial dos Povos Indígenas

 

“Somos fortes, trabalhadeiras e belas”. É assim que uma “menire” – mulher na língua dos Kayapó – refere-se ao próprio gênero, como registra o catálogo “Menire Bê Kayapó Djàpêj” (A mulher Kayapó e seu trabalho), lançado ontem (5) no Memorial dos Povos Indígenas, no Eixo Monumental Oeste, junto à Praça do Buriti.

 

O livro é acompanhado de uma exposição que reúne rico acervo fotográfico distribuído em painéis temáticos e didáticos e composto também de elementos da natureza, como sementes, ervas, remédios, vistoso artesanato e outros itens que fazem parte do universo cultural das integrantes desse povo originário que vive em nove aldeias a sudoeste do Pará, na floresta Amazônica, a pouco mais de 2 mil quilômetros da capital federal.

 

Com o apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec), a exposição que vai até 31 de dezembro é fruto da atividade do Instituto Kabu, criado pelos próprios Kayapó há dez anos, completos em março passado, com o objetivo de defender seus direitos, lutar por políticas públicas em favor do seu povo e divulgar sua cultura e modos de vida.

 

A escolha de 5 de setembro para juntar mais de 200 pessoas no MPI tampouco foi por acaso. A data celebra o “Dia Internacional da Mulher Indígena”, que marca o assassinato brutal de uma líder dos povos originários na Bolívia há quase 240 anos.

 

Essa é uma das razões por que a exposição faz foco na mulher. A outra, explica o curador da mostra, fotógrafo e indigenista Cléber Oliveira de Araújo, é que cabe às Kayapó o principal papel na transmissão da cultura de seu povo. “Os guerreiros vão à caça, defendem as terras contra os invasores, elas cuidam das hortas, dos filhos, cultivam os mitos originais e contam histórias”, diz.

 

Araújo enfatiza que a seleção do material exposto tenta livrar as pessoas de ideias estereotipadas sobre esses povos, colocando-as em contato com a riqueza do trabalho das mulheres da etnia na sua lida no manejo sustentável da floresta, na educação dos filhos e preservação de cultura e da cosmogonia em que assenta a singuralidade desse povo. “Cuidar da natureza é cuidar de nossa identidade”, sintetizou a “menire” Mayal, uma de tantas “parentes” (como os indígenas se referem a outros entre si) que discursaram emocionadas.

 

A abertura da exposição ganhou contornos litúrgicos com apresentações das mulheres Kayapó, seminuas, com o corpo portando grafismos rituais com o preto do jenipapo, os rostos em vermelho do urucum, chocalhos nas mãos, olhos perdidos em algum ponto para além da curiosidade das pessoas da audiência no MPI.

 

Esse é um ritual das mulheres, “a dança da nominação”, explica Cléber. “É convocada por uma das avós para marcar o momento em que uma criança está pronta para receber o nome definitivo”.

 

O convívio do biólogo com o povo Kayapó se estende há mais de dez anos. “Um longo tempo, dormindo em suas moradias, indo junto para as roças, ouvindo suas histórias, seus anseios, suas reclamações”, diz. Formado pela UnB, ele destaca que também é um indigenista prático: “Aprendi muito com sertanistas e com chefes de posto na pauta que foi da Funai por muito tempo”.

 

A exposição foi cercada por outras duas atividades que dialogam com a conservação do patrimônio imaterial e a criação de emprego e renda. Na quinta (4), 40 professores participaram de atividades de elaboração de planos de aula para aplicação nas escolas públicas.

 

Ana Paula Bernardes, professora ligada à Secretaria de Educação do DF e cedida ao projeto “Territórios Culturais” – de ação conjunta com a Secec para promover educação patrimonial material e imaterial –, acredita no valor da iniciativa. Depois de ouvirem palestra de Cléber e narrativas de mulheres Kayapó, os docentes se reuniram para elaborar planos de aula que ficarão disponíveis em fórum virtual para uso compartilhado e aperfeiçoamento coletivo nas escolas públicas. “Educação acaba com o preconceito, ensina o respeito, promove a tolerância”, sintetizou.

 

Para o subsecretário do Patrimônio Cultural, Cristian Brayner, presente na abertura da mostra, o MPI vive um momento especial. Ele falou tendo como pano de fundo uma imponente instalação com troncos de madeira representando a força das línguas ainda faladas no Brasil pelos mais de 300 povos remanescentes das populações originárias, 32 dos quais presentes no DF, inclusive no Noroeste. “O MPI volta a ser ocupado na nossa gestão pelos queridos irmãos a quem o país deve tanto”, discursou.

 

Hoje (6) empresários estão participando de uma roda de negócios com as Kayapó. A ideia do Instituto Kabu é beneficiar os indígenas na geração de renda. O estilista e designer Miguel Habacuque, de Brasília, que segue o MPI no Instagram e soube por lá da iniciativa, se inscreveu para conversar com elas.

 

“Estou interessado em processos naturais de tingimento e na elaboração de padronagens, mas vou com a cabeça aberta para aprender”, diz ele, que é dono de uma loja na Asa Sul e de um ateliê de moda em Planaltina (DF). Miguel aposta no crescimento do mercado consumidor interessado em produtos que respeitem a natureza, os trabalhadores da cadeia produtiva e o manejo sustentável do ambiente.

 

As “menire” conhecem o caminho.

 

Serviço
Exposição “Menire Bê Kayapó Djàpêj” (A mulher Kayapó e seu trabalho)
Memorial dos Povos Indígenas
Eixo Monumental Oeste, junto à Praça do Buriti.
Visitação: Até 31 de dezembro, de terça a sexta-feira, das 9h às 17h; e sábados, domingos e feriados, das 10h às 17h.

 

 

Fotos: Ludimila Barbosa SECEC DF