Governo do Distrito Federal
Governo do Distrito Federal
25/10/20 às 14h59 - Atualizado em 11/12/20 às 12h32

ENTREVISTA/BARTOLOMEU RODRIGUES: “Teremos o melhor festival de cinema já realizado em tempos de pandemia”

COMPARTILHAR

Texto e edição: Sérgio Maggio (Ascom/Secec)

26/10/2020

00:13:14

 

Quando decidiu cancelar o edital que escolheria a Organização da Sociedade Civil (OSC), em 30 de setembro de 2020, por conta de questionamentos sobre a capacidade da empresa selecionada,  o secretário de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal tinha uma escolha difícil a fazer: realizar ou não realizar o 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB). Ouviu opiniões adversas, respirou fundo e decidiu: “Sim, faremos esta edição”.

 

A decisão impôs um nova rotina de trabalho na Secec. Em menos de 30 dias, as inscrições do FBCB abrem-se para longas e curtas-metragens das mostras Competitiva e Brasília, sob curadoria do premiado cineasta Silvio Tendler.

 

Marcado para o período de 15 a 20 de dezembro de 2020, pelo Canal Brasil, o mais tradicional festival de cinema do país segue rumo à continuidade em ano em que edições foram canceladas.  “A Covid apenas veio para expor de maneira crua a realidade e forçar o debate. Num cenário desses, seria uma lástima deixar o Festival de Brasília de fora. Estamos definitivamente dentro.”

 

Inscreva-se na 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (FBCB)

Mostra Competitiva

Mostra Brasília

 

Leia mais:

Abertas as inscrições de filmes para o 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Curador do 53º FBCB, Silvio Tendler ergueu, nas telas, um Brasil “utopias e barbáries”

Cineastas brasileiros comemoram a continuidade do Festival de Brasília

 

 

QUE SIGNIFICADO TEM, PARA A CULTURA DO DF, NÃO INTERROMPER O MAIS TRADICIONAL FESTIVAL DE CINEMA BRASILEIRO?

foto: Marina Gadelha - SECEC/DF

BARTOLOMEU RODRIGUES – Acrescentaria o significado que tem para a cultura nacional, em um momento particularmente difícil. Não estamos falando apenas de uma crise sanitária. Vários sinais vinham, de muito tempo, apontando para a necessidade de uma reflexão dos setores culturais em face das transformações, sejam de ordem política, sejam tecnológicas, envolvendo o modus operandi do fazer cultural, num momento em que as estruturas flertam com o desmonte e o autoritarismo. A Covid apenas veio para expor de maneira crua a realidade e forçar o debate.

 

“Num cenário desses,

seria uma lástima deixar

o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro de fora. Estamos definitivamente dentro”

 

DEBATE E CALOR HUMANO SEMPRE FORAM CARACTERÍSTICAS DO FBCB? E AGORA, NO FORMATO REMOTO?

BR – Seria bem melhor tudo isso acontecer numa sala cheia de gente, com gritos, vaias, aplausos e sorrisos. Mas veja que, desta vez, já temos um grande diferencial: transmitido pelo Canal Brasil, o 53º Festival de Cinema de Brasília será, literalmente, do “cinema brasileiro”, terá alcance nacional, algo impensável antes. Não só visto, como discutido. O debate está posto. As redes sociais hoje são salas cheias, gostemos ou não. Sem dúvida, será o campo para tocarmos em algumas feridas que o ambiente de um festival de cinema propicia, até para discutirmos o futuro do cinema brasileiro.

 

PODE-SE DIZER QUE O TRIPÉ DEMOCRATIZAÇÃO, DESCENTRALIZAÇÃO E ACESSO É UMA MARCA DA ATUAL GESTÃO DA SECRETARIA DE CULTURA E ECONOMIA CRIATIVA?

BR – Pode-se dizer que a atual gestão busca, no diálogo com todos os segmentos, promover uma política cultural pública que não se fixe na ideia de sustentar estruturas obsoletas.

 

“Estamos dispostos a praticar

uma política cultural provocativa,

no sentido de estimular,

de acordar setores que se

sentiam à margem do processo.”

 

EXISTE POSSIBLIDADE DE O CINE BRASÍLIA PARTICIPAR, MESMO QUE SIMBOLICAMENTE, DO FESTIVAL?

BR – Estamos trabalhando para isso. Só não adianto nada agora porque depende de alguns protocolos que, para seguirmos ao pé da letra, precisaremos correr contra o tempo. Pensamos até mesmo na Estação do Metrô, que já recebeu o nome do Cine e, quem sabe, ganhará uma exposição permanente dos cartazes que marcaram época na cidade. Vêm novidades por aí.

 

COMO FOI A IDEIA DE CHAMAR O CINEASTA SÍLVIO TENDLER PARA A CURADORIA DO FESTIVAL DE BRASÍLIA?

BR – Não foi fácil ter de cancelar o edital da instituição que realizaria o Festival de Brasília. Daí veio uma agradável surpresa: de todo o país, manifestações generosas de apoio e até, diria, de abnegação. E com elas, o nome do Silvio, que estava em casa, com uma longa barba de Papai Noel, escondendo-se da Covid. Quando joguei o assunto, ele respondeu sorrindo e disposto:

 

“Cancelar o Festival?

De jeito nenhum!

Vamos fazer.”

 

O QUE SILVIO TENDLER TEM TRAZIDO DE PROVOCADOR PARA A SECRETARIA DE CULTURA E ECONOMIA CRIATIVA?

BR – Silvio não é só o cara de “Jango”, “Os anos JK”, “Militares da democracia”, “Privatizações: A Distopia do Capital” etc. Silvio foi secretário de Cultura aqui do DF. Sabe como é carregar uma máquina desse tamanho nas costas. Fez um Festival, diga-se, memorável, e está, nesse momento, dando-nos verdadeiras lições de como executar uma ideia que estava no papel. A energia dele me impressiona. Velho druida, deve ter trazido uma poção mágica, pois só isso explica o entusiasmo contagiante de toda a equipe desde que ele se engajou conosco.

 

A SECEC VOLTANDO A PRODUZIR O FESTIVAL PODE SER UMA NOVA POLÍTICA?

BR – Está aí uma boa provocação. Sem uma OSC à frente do processo, claro, mudam-se procedimentos e ficamos presos a uma série de exigências legais que, para serem cumpridas, levam tempo. Nesse sentido, é louvável o esforço do nosso jurídico e, mais ainda, o apoio que recebemos da Procuradoria-Geral do DF para dirimir nossas dúvidas.

 

“Quem sabe, podemos

estabelecer um formato

que permita uma participação

mais cooperativa

do segmento audiovisual

para os próximos festivais.”

 

O QUE O CINÉFILO PODE ESPERAR DESTA EDIÇÃO, JÁ QUE SE REALIZA NO MOMENTO EM QUE BRASÍLIA COMPLETA 60 ANOS?

BR – Não me preocupo quando me chamam de exagerado, meu lado pernambucano até gosta, por isso acho que teremos o melhor Festival já realizado em tempos de pandemia. Aliás, por resistência, nosso Festival de Brasília já merecia esse reconhecimento. Em que pese a crise por que passa o cinema brasileiro atualmente, o festival vai mostrar que o setor não se entrega assim tão facilmente.

 

REALIZAR A 53ª EDIÇÃO DO FESTIVAL TEM SIDO UMA ATITUDE DE GARRA E CORAGEM. QUAL A SENSAÇÃO DE REALIZAR O EVENTO MAIS TRADICIONAL DO CINEMA BRASILEIRO, EM QUE PESE TANTAS DIFICULDADES E ALGUMAS OPOSIÇÕES?

BR – Pelo amor de Deus, é o que tenho a dizer: ou a gente para de brigar e se entende ou vai deixar a estrutura se corroer e ruir. Aí, não há uma ideia na cabeça e uma câmera na mão que possam dar jeito. Foi para evitar que se gastasse energia com discussões pessoais que cancelamos o edital. Agarrei-me com os santos protetores do cinema brasileiro e descobri que no meio do caminho tem muita gente boa, sim, para ajudar.

 

“Que eles digam

amém, saravá,

salam aleikum,

pois eu já

acendi

minha vela.”

 

Assessoria de Comunicação da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF

e-mail: comunicacao@cultura.df.gov.br