Governo do Distrito Federal
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24/06/20 às 11h40 - Atualizado em 24/06/20 às 11h42

Documentário mostra força em festival online que começa hoje (24)

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“Rastro” vai até domingo, com filmes gratuitos por 24 horas em site do evento

 

“O filme documentário está cada vez mais em alta”, acredita o cineasta e diretor de títulos premiados Renato Barbieri em entrevista ao site da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec) sobre o lugar do gênero na produção audiovisual, que ganha a partir de hoje (24) uma mostra virtual no período de pandemia da Covid-19. Trata-se da primeira edição de “O Rastro – Festival de Cinema Documentário”, que vai até domingo, gratuito, pelo site do evento, que conta com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC).

 

O festival foi originalmente pensado para sessões presenciais no Cine Brasília, seguidas de debate, formato que teve de ser refeito em razão do isolamento social. As organizadoras da Três Produz decidiram então realizá-lo pela internet, onde o público terá acesso gratuito a sessões competitivas de longas e curtas, três mostras paralelas, duas oficinas, uma “masterclass” e discussões nas redes sociais. Quatro curadores (dois nomes consagrados e dois iniciantes – proposta do festival) selecionaram os títulos da mostra (confira no site) entre mais de 800 filmes inscritos.

 

“Entendemos a internet como possibilidade de alcance global. Para explorar isso, optamos por realizar exibições que possibilitam diferentes tipos de acesso”, diz Bethania Maia, uma das integrantes (com Rafaella Rezende e Renata Schelb) da brasiliense Três. A programação inclui filmes estrangeiros legendados em português, brasileiros com legendas em inglês e sessões com legendagem descritiva.

 

O programador e gerente do Cine Brasília, Rodrigo Torres, acredita que documentário ainda é um gênero que encontra menos audiência que os filmes de ficção e festeja que haja mecanismos como o FAC para ajudar na formação de público.

 

Barbieri concorda com ele, mas pondera que se produz muito mais documentário, mais leve, que ficção, que exige muito investimento e tempo: “O público da ficção é maior que o do documentário. Os jovens tendem a gostar mais da ficção, que é mais imersiva, embala com mais facilidade”.

 

Com experiência em documentário, ficção e animação, curador e produtor do Teste de Audiência desde 2007, Barbieri – diretor do revolucionário Jornal de Vanguarda, na Band, entre 1988 e 1989 – acredita que os documentários demandam maior formação intelectual e maturidade da audiência porque têm abordagens mais complexas e profundas.

 

Com dois filmes em fase de lançamento – os longas “Pureza” (ficção) e “Servidão” (documentário), ambos sobre trabalho escravo hoje no Brasil – Barbieri entende que o público de documentário ocupa nichos e tende a acompanhar os realizadores dentro dessas clivagens.

 

Ele lembra que sucessos de bilheteria de documentário, como “Raul – O Início, o Fim e o Meio” (2011), de Walter Carvalho, têm parte do êxito devido ao interesse suscitado na legião de fãs do roqueiro de “Metamorfose Ambulante” (1973). “Do mesmo modo, tem o nicho interessado em questões de gênero, étnicas ou políticas”, teoriza.

 

Ele também justifica o crescente interesse pelo documentário por ajudar na formação de opinião num mundo confuso, no qual as pessoas precisam tomar decisões importantes para suas vidas. Acredita que o documentário acabe ocupando uma lacuna deixada pelo jornalismo por esse ser refém de uma agenda que se repete (Covid-19, crise política, recessão) e se torna cansativa.

 

Linguagem
A professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB) Mariana Souto, que leciona disciplinas sobre documentário, lembra que as pessoas ainda associam o documentário a um formato mais padrão, menos criativo, associando-o muitas vezes à grande reportagem.

 

“Documentários podem ser muito diferentes entre si, podem ou não ter narração em ‘off’, podem ou não ter entrevistas. Podem ser poéticos, performáticos, podem ser muito pessoais e subjetivos, narrados em primeira pessoa, podem lançar mão de estratégias ficcionais, como encenação, atores profissionais”, elenca ela parte dessas possibilidades.

 

“Há muitos filmes híbridos entre o documentário e a ficção, em que não se pode discernir exatamente o que é fato, o que é criação”, ensina a docente. Ela cita como exemplos disso os filmes “Jogo de cena” (2007), do Eduardo Coutinho, “Close-up” (1990), do Abbas Kiarostami (diretor iraniano que faria 80 em 22 de junho), “A cidade é uma só?” (2013), do cineasta de Ceilândia Adirley Queirós, “As mil e uma noites” (2015) e “Aquele querido mês de agosto” (2008), do português Miguel Gomes. “São filmes que usam da matéria-prima da realidade para criar fabulações. Filmes extremamente inventivos e que renovam a linguagem cinematográfica”, anota.

 

Barbieri entende que o documentário é mais livre que a ficção, muito presa à camisa de força da tríade roteiro-filmagem-montagem. Experiente nos vários gêneros, lembra que na montagem do documentário é mais fácil mudar o rumo do discurso que na ficção, mais engessada. “Na ficção não dá para sair da história, fazer um apêndice, por conta do risco de as pessoas se desligarem da narrativa”, afirma.

 

“Como seria possível aprisionar uma manifestação artística? O fazer documental é tão amplo quanto qualquer outra possibilidade de criação audiovisual”, provoca Bethania Maia. “Dentro da programação do Rastro isso é explorado a partir da dessemelhança das obras a serem exibidas”. Ela afirma que, na mostra competitiva, filmes como “Cinema Contemporâneo” (Felipe André Silva), “Filhas de Lavadeiras” (Edileuza Penha) e “Ethereality” (Kantarama Gahigiri) evidenciam diversas possibilidades criativas.

 

A estudante de Artes Visuais na UnB, “pesquisadora de gênero, raça, caminhos e fragmentos” – como se apresenta –, acredita que o papel do estreante “Rastro” é “chacoalhar o mundo” bem no meio da pandemia. “Não basta projetar um filme numa tela e esperar que as pessoas prontamente se interessem; é necessário despertar empatia e interesse, e ambas as coisas são possíveis exibindo ficção ou documentário”.

 

Rastro tem na curadoria Amaranta César, professora adjunta de cinema e audiovisual da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, onde coordena o grupo de estudos e práticas em documentário. Possui doutorado em Paris III – Sorbonne-Nouvelle e pós-doutorado na New York University e na Universidade Federal de Pernambuco; Melina Bomfim, que atua como realizadora audiovisual, curadora e produtora de mostras e festivais cinematográficos, pós-graduada em Cinema Documentário na escola Observatório del Cine em Buenos Aires, onde trabalhou na multinacional Fox Broadcasting Company como produtora de conteúdos; Bruno Victor, graduado em Audiovisual pela Universidade de Brasília, e Leticia Bispo, mestranda em Comunicação na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), formada em Audiovisual pela UnB.

 

Veja detalhes sobre atividades formativas no site (serviço abaixo).

 

Serviço
“Rastro – Festival de Cinema Documentário”
Data: De 24 a 28 de junho de 2020
Site: www.festivalrastro.com
Conteúdo gratuito