Governo do Distrito Federal
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1/04/20 às 19h31 - Atualizado em 2/04/20 às 11h01

Complexo Cultural de Planaltina aproveita paralisação de atividades para contar sua história

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Perfil publica depoimentos da comunidade artística local a partir do movimento em apoio à obra em 2016

 

Há exatos quatro anos, em 1º de abril de 2016, um cortejo de artistas caminhou da rodoviária de Planaltina (DF) até o terreno onde hoje está o Complexo Cultural (CCP) da cidade, equipamento da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec). “Foi uma festa”, recorda-se o gerente do Complexo Cultural de Planaltina, Carlos Augusto Júnior Ribeiro, que comemorou o aniversário do acontecimento com uma postagem no perfil oficial do Instagram (@ccplanaltina). 

 

Participaram do cortejo os coletivos artísticos Omó Ayó (percussão), Grupo Junino Arrasta Pé, Transições Cia. de Dança e Artes, Grupo Jalilah (dança do ventre) e Sensação Paraense (carimbó), todos imbuídos do propósito de marcar presença no local quando a obra recebia sua pedra fundamental. 

 

(Ato I)

 

O que seria uma postagem isolada virou um projeto para movimentar a comunidade de artistas da região, durante o isolamento social adotado no Distrito Federal para conter a pandemia de coronavírus (Covid-19). “Complexo em Movimento, uma Retrospectiva em Isolamento” é um convite para a comunidade de artistas registrar depoimentos sobre três momentos que marcaram o início das obras em 2016 até a conclusão da construção dois anos depois. 

 

“A minha ideia é postar algumas fotos sobre cada um dos três atos de 2016 e pedir a meus colegas artistas que engrossem a manifestação com suas visões”, explica Júnior (como é conhecido na cena local). Fotos e depoimentos se organizarão em torno de três intervenções artísticas em 2016, batizadas de “Ciranda” (uma roda de mãos dadas no local, já publicada), “Passeata” (o cortejo mencionado acima, postagem de hoje) e “Ocupação” (quando foram levantados os tapumes, e a obra deslanchou, ainda para acontecer, tudo no Instagram).

 

 (Ato II)

 

“Quando fiz essas fotos, eu sabia que um dia serviriam para contar um pouco da história do equipamento, oportunidade que surgiu agora com a suspensão de atividades sociais”, conta ele.

 

(Ato III)

 

 

História

O professor de história, poeta, contista e militante cultural Geraldo Ramiere, lembra que “um espaço próprio para os fazeres artísticos e culturais de Planaltina é algo com que se sonhava há gerações”. Foi fruto, segundo ele, de muita mobilização e luta, principalmente de artistas e dos movimentos culturais da cidade, incluindo o Conselho Regional de Cultura de Planaltina, que ganhou o nome de “União de Forças – Por Um Complexo Em Movimento”.

 

Ramiere apoia a quarentena decretada pelo GDF. “Claro que é triste ver fechado um espaço tão importante e tão esperado como o Complexo Cultural de Planaltina, mas o momento agora é de salvar vidas. E acredito ser possível os artistas continuarem a divulgar seus trabalhos pelas redes sociais”, afirma.

 

O pedagogo, produtor cultural e ativista LGBTQI+ e de religiões de matrizes africanas Lúcio Cardia considera o CCP uma conquista muito importante, que acolhe as manifestações artísticas e mudou a face da cidade, despertando e incentivando o interesse da população local pela cultura. 

 

“O Espaço deserto nos faz pensar que a cultura sempre resiste. Os palcos e camarins estarão lá esperando por nós na volta. Acredito que ficaremos mais fortes ainda, e a população em geral mais aberta para ter contato com a arte”, imagina ele, que também atua na Administração Regional de Planaltina, onde ajuda na gestão assuntos de cultura.

 

O ator e produtor Renato Telles destaca a intensa participação da comunidade de Planaltina não apenas na luta para que o CCP se tornasse realidade, mas na fiscalização das várias etapas da obra. Lembra-se da “Ocupação” como o primeiro grande movimento, quando cerca de 300 artistas se reuniram em torno dos tapumes para os pintar e fazer intervenções com a participação das pessoas. “Foi muito lindo”, relembra.

 

A tecnóloga em radiologia com especialização em radioterapia, Bárbara Cristina Santiago Silva, quando deixa o jaleco se torna a batuqueira do grupo de maracatu Tambores do Amanhecer, filiado à agremiação de Recife (PE) Nação Porto Rico.  Ela também destaca a “Ocupação” como o momento mais marcante do início da história do Complexo Cultural. “A gente entrou na madrugada pintando o tapume de branco, com tinta doada, para que no dia seguinte os artistas pudessem fazer sua arte, pintando e escrevendo poesia”, recorda-se.

 

Bárbara louva no CCP a capacidade de dialogar com vários públicos. “Quem frequenta é gente de vários setores da sociedade. Não é só dança e teatro. Tem pessoas que antes do Complexo nunca tinham assistido a um filme. A sala multiuso, que podia ser três ou cinco, recebe muitas atividades. E o principal: quase tudo gratuito. Foi uma luta que valeu muito a pena [a da construção]”, acredita.

 

O CCP foi entregue ao público em 4 de outubro de 2018. Localizado no Setor Administrativo de Planaltina, o CCP possui auditório coberto de 340 lugares, com palco, estrutura de camarins e sistemas de sonorização e projeção, teatro com arquibancadas ao ar livre para cerca de 450 pessoas, galeria para exposições e sala multiuso. Desde a inauguração, o local já apresentou 213 atividades culturais e um público de 33.705 pessoas.

 

Fotos: Júnior Ribeiro.