Governo do Distrito Federal
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8/03/20 às 21h20 - Atualizado em 8/03/20 às 21h27

Cine-debate no Dia Internacional da Mulher reúne público recorde para discutir questões feministas

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Dois filmes de cineasta brasiliense levantam questões sobre o lugar invisível do “segundo sexo” nos registros históricos

 

Sessenta pessoas entre as 200 presentes para assistir aos filmes de Tânia Fontenele “Poeira e Batom” (2010) e “Mulheres do Café” (2018) participaram hoje (8), no Dia Internacional da Mulher, do bate-papo com a cineasta brasiliense e a produtora executiva do curta, Cristina Arzabe, no foyer do Cine Brasília em edição do Cine-debate, com entrada franca.

 

Fontenele dividiu com a plateia sua experiência, como pesquisadora de gênero, de perceber que os jornais do período de construção da capital federal (1957 a 1960), que completa 60 anos em abril, costumavam registrar o protagonismo dos homens, mantendo “o segundo sexo”, no título do clássico de Simone de Beauvoir de 1949,  numa zona de invisibilidade.

 

“A gente via na legenda da foto de jornal o registro do dono do restaurante na então Cidade Livre [hoje Núcleo Bandeirante] na frente de seu empreendimento, falando de seu negócio, sem qualquer referência à mulher dele, que era quem cozinhava”, disse na conversa com a plateia. Ela gravou 60 horas de depoimentos com 50 pioneiras ou, como muitas costumam preferir, candangas.

 

Economista com mestrado em Psicologia Social, Tânia defende tese de doutorado em junho, na Universidade de Brasília (UnB), na linha de pesquisa da História “Memória e Identidade”, na qual discute o papel de depoimentos orais no resgate de acontecimentos importantes. A investigação, com recorte de gênero, fecha o foco na construção de Brasília.

 

Tanto “Poeira” como “Mulheres” deixam claro nos depoimentos registrados pelas lentes de Tânia que o sexo feminino não recebe os créditos pelo seu trabalho nos dois casos filmados – a construção de Brasília e o sustento da família no cultivo do café.

 

A administradora Gisele Gomes, natural de Belém e radicada em Brasília, considerou a discussão depois dos filmes importante porque entende que “nada mudou muito” para a mulher dez anos depois do lançamento do “Poeira”.

 

“Os homens ascendem profissionalmente com mais facilidade que a mulher e ainda têm salários maiores no mercado para a mesma função”, denuncia. Ela aponta também a discriminação que as mulheres sofrem das chefias quando têm filhos: “Não vamos dar esse projeto para ela porque não vai dar conta já que agora tem de cuidar de criança”.

 

Gisele ficou sensibilizada com passagens na tela que retratam a coragem da mulher. “O homem veio participar da construção de Brasília deixando a família para trás. A mulher também participou disso e ainda teve e criou os filhos”, compara.