Governo do Distrito Federal
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11/05/20 às 11h05 - Atualizado em 11/05/20 às 11h33

Cine Brasília recupera pôsteres de filmes e festivais e dá início a projeto de memória do espaço

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Secec reúne mais de trezentos cartazes que contam a história da programação

 

Cinema, cartazes e memória. Esse trinômio está na raiz de uma iniciativa do Cine Brasília que ganhou impulso com a presente interrupção das exibições públicas de filmes no equipamento da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec) provocada pela pandemia do coronavírus.

 

Uma ação da unidade de Audiovisual da Secec conseguiu reunir 276 cartazes de filmes comerciais exibidos no Cine Brasília após a reforma do espaço, reinaugurado em 2013 depois de 16 meses fechado. O precioso achado inclui ainda 38 peças de divulgação de mostras e festivais realizados desde então no chamado templo do cinema brasileiro.

 

Segundo o gerente do Cine Brasília, Rodrigo Torres, a ação é o primeiro estágio de um projeto para preservar de forma segura esses cartazes e também elaborar uma plataforma que possibilite o rastreamento de documentos sobre a história da sala projetada por Oscar Niemeyer e inaugurada um dia após a capital do país, em 1960.

 

 

Os 314 cartazes resgatados pela equipe do Cine Brasília já foram organizados em ordem alfabética pela equipe do Arquivo Público do Distrito Federal (ArPDF) e aguardam o fim da pandemia para receber um trabalho de planificação. Enquanto isso, estão guardados numa sala do Anexo do Teatro Nacional Claudio Santoro sob a custódia da Comissão de Avaliação de Documentos da Secec.

 

A servidora à frente da Comissão, Keyciane Araújo, que zela pelos cartazes como um tesouro, acredita que o Arquivo Público venha a ser o destino final dos pôsteres. A coordenadora da Sistema de Arquivos (Cosis) do ArpDF, Taiama Mamede, apoia a ideia: “Esse material seria muito bem-vindo. Já existem pôsteres aqui, inclusive”. O Arquivo Público tem um arquivo permanente, que também guarda fotos da construção do Cine pela Novacap.

 

Para os aficionados da sétima arte, destacam-se entre os pôsteres peças como “Acossado” (Jean-Luc Godard), “A Bela da Tarde” (Luis Buñuel), “Amor, Plástico e Barulho” (Renata Pinheiro), “O Último Cine Drive-in” (Iberê Carvalho) e o recente campeão nacional de bilheteria “Bacurau” (Kleber Mendonça e Juliano Dorneles). 

 

Alusivos a mostras e festivais, há cartazes de edições do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, do Curta Brasília, de mostras de cinema europeu, de festivais dedicados a diretores, seleções de filmes com embaixadas e iniciativas como Surdo Cinema e Slow Film. 

 

Torres acredita que o destino do material deva mesmo ser o Arquivo Público, uma vez que o Cine Brasília não tem espaço para receber e guardar os cartazes de maneira adequada. Um dos objetivos do projeto é desenvolver uma plataforma para rastrear documentos sobre o espaço cultural, que hoje se encontram espalhados em várias instituições. 

 

Além da Secec e do Arquivo Público, a Biblioteca Nacional de Brasília, a Universidade de Brasília (UnB) e arquivos pessoais. O projeto em embrião, que promete desdobramentos mantidos em sigilo por enquanto, tem calorosa acolhida entre personalidades e estudiosos da área. 

 

Acolhida calorosa

O cineasta e ex-professor da UnB Vladimir Carvalho, protagonista de grandes momentos na história do cinema brasileiro e brasiliense, como o episódio do sequestro de seu filme “O País de São Saruê” (1971) pela ditadura militar em pleno Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, para o qual havia sido selecionado, apoia a iniciativa calorosamente.

 

“Os cartazes, além de importantes veículos para divulgação de obras cinematográficas, alcançaram por sua concepção e esmero o status de uma arte à parte. Daí o surgimento de verdadeiras coleções e de entusiastas colecionadores que terminam por trazer informações preciosas sobre os diversos períodos da história do cinema”, ensina.

 

Contemporâneo de Caetano Veloso e Glauber Rocha em sua passagem por Salvador (BA), onde cursou filosofia, o paraibano Carvalho destaca o papel do Cine Brasília na formação de público: “A programação muito bem concebida e realizada tem atraído não só o cinéfilo de sempre, mas sobretudo jovens plateias interessadas não só nos clássicos mas nos lançamentos vindos de toda parte”. 

 

A fotógrafa, cineasta e professora adjunta da Faculdade de Comunicação da UnB Rose May Carneiro, que já lecionou as disciplinas História do Cinema, do Cinema Brasileiro, Linguagem Cinematográfica e Documentário, também acredita no potencial da iniciativa: “Certamente, a restauração desse acervo de pôsteres vai nos trazer de volta um arsenal de sensações junto a um arcabouço de memórias, por meio de ilustrações, fotografias, cores, ângulos, iluminações e tipologias impressas e imortalizadas naquelas paredes [do foyer do Cine Brasília]”. 

 

Ela acredita que uma exposição do acervo “será uma excelente oportunidade para os cinéfilos e cinéfilas reverem toda a modernidade que dialogava com a Literatura, a Filosofia e a Psicanálise e invadia o extraquadro do longa de estreia do Godard (“Acossado”) ou os mais recônditos desejos e delírios do imaginário projetados por Buñuel (“A bela da tarde”)”. 

 

Carneiro lembra ainda o quanto esses cartazes recuperam “a força e o lirismo do cinema brasiliense (Adirley, Iberê, Santiago etc), os dramas políticos e pessoais costurados pelas lentes pulsantes do Kleber Mendonça e Juliano Dorneles (Bacurau) até chegarmos nas imagens emblemáticas dos últimos pôsteres do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro”.