Governo do Distrito Federal
Governo do Distrito Federal
10/04/11 às 12h35 - Atualizado em 13/11/18 às 14h36

Artigo: Nossa cultura é nossa diferença

COMPARTILHAR

Autor: Hamilton Pereira
Publicado no Correio Braziliense em 08/04/2011

(Pedro Tierra)

Secretário de Cultura do Distrito Federal

Nossa cultura é nossa diferença. É um conjunto dinâmico de valores nos quais acreditamos, cultivamos e expressamos por meio da criação e difusão de bens simbólicos, que perpetuam a memória e testemunham a capacidade inventiva de nosso povo.

A mobilização dos cidadãos e cidadãs do Distrito Federal por meio da III Conferência de Cultura nos permite propor um diálogo em torno da diversidade cultural que a capital do país abriga. E refletir sobre o conflito que se estabelece entre essa diversidade e a indústria cultural que aqui se reproduz.

Trata-se de um debate que envolve todos os que se interessam pela agenda da cultura no mundo contemporâneo. Está estreitamente relacionada com a noção do direito à diferença, à sua livre manifestação e à tolerância com os diferentes. Ainda no início dos anos 90 do século passado, a Unesco estimulou esse debate sistematizado no volume Nossa diversidade criadora, assinado por Federico Mayor Saragoza, então diretor-geral da organização, e concluído com a publicação do documento em defesa do direito à diversidade cultural.

O debate adquire relevância neste início do governo Agnelo Queiroz, na medida em que temos a obrigação de preparar Brasília para os eventos de 2014 e 2016. Oferecer qualidade de vida aos 2,5 milhões de brasileiros que aqui vivem e preparar as cidades para os turistas que nos visitarão daqui até a Copa do Mundo e as Olimpíadas é um desafio incontornável do novo governo.

Superar a improvisação que ainda marca os processos culturais, as grandes festas públicas, como o carnaval, é indispensável para obtermos a qualidade desejada. Evidentemente, as políticas públicas de cultura têm uma palavra a dizer na construção desse processo. Com esse objetivo, o Governo do Distrito Federal convidará dentro de alguns dias os diferentes segmentos econômicos, sociais e culturais das cidades para abrir o debate em torno da economia do carnaval.

Devemos evitar que Brasília se apresente aos brasileiros e estrangeiros que nos visitam como uma espécie de shopping center em que se oferecem os mesmos produtos — ou subprodutos — para entretenimento, as mesmas marcas que podem ser encontradas em qualquer shopping do mundo.

As 30 cidades que compõem o mosaico do Distrito Federal ainda engatinham na afirmação de suas identidades culturais, com as exceções que confirmam a regra. Cabe aos movimentos sociais e culturais, aos produtores e também ao Estado, estudar, pesquisar o perfil de cada comunidade, aguçar a sensibilidade para perceber os aspectos mais marcantes, mais fecundos, mais definidores de cada uma delas e investir no amadurecimento, na formação, daquelas expressões mais genuínas, mais originais, de modo que possamos oferecer um calendário cultural rico e diversificado, ao longo do ano, que reflita a diversidade e a melhor qualidade do que aqui se produz.

Esse é um dos caminhos possíveis para escapar da pasteurização, da mesmice, da padronização. Elas só servem aos que monopolizam as estruturas materiais da produção cultural, em sacrifício da criatividade e do talento indispensáveis à criação estética. É preciso apostar na diversidade, no talento dos artistas que expressam os conflitos humanos e as esperanças de quem vive no Distrito Federal, no diálogo fecundo com os artistas do Brasil e do mundo. Estabelecer uma perspectiva capaz de consolidar as bases de uma economia criativa preparada para responder de maneira contemporânea aos desafios da inserção das atividades culturais na atividade econômica do Distrito Federal no século 21.

A economia da cultura no mundo contemporâneo está assentada na oferta da diferença, mesmo quando nos oferece um jeans. Acentuar de maneira bem cuidada as qualidades específicas dos bens e serviços simbólicos que oferecemos a partir da memória e dos valores que cultivamos é a forma de afirmarmos com altivez: nossa cultura é nossa diferença.

Publicada em 2011