Governo do Distrito Federal
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15/04/19 às 10h22 - Atualizado em 15/04/19 às 10h32

Evento de Economia Criativa em três dias mostra força de Brasília no segmento

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Cerca de 600 pessoas entre empreendedores e público participaram de três dias de atividades da 2ª edição do Mercado Território Criativo, que terminou ontem (14) no Espaço Cultural Renato Russo, na 508 sul.

 

Iniciativa da Secretaria de Cultura e do Instituto Bem Cultural, o evento promoveu ambiente de integração para geração de negócios e trocas de experiências entre agentes da economia criativa do Distrito Federal, qualificação profissional e fomento de cadeias produtivas das artes e inovação.

 

As atividades do domingo começaram pela manhã, com duas oficinas, uma sobre precificação de criativos e outra tratando de conexões entre empreendimentos para geração de negócios. A segunda teve como facilitadora uma empresa de mentorias e conversas para aprendizagem multidisciplinar, a Napkin Talk.

 

Uma das idealizadoras do projeto, Carol Freitas, explicou que a empresa põe para conversar profissionais que não costumam trocar ideias porque pertencem a especialidades distintas. “Nosso papel é ajudar as pessoas a navegar entre suas áreas, sua bolhas”. Isso significa, por exemplo, colocar um contador, um designer e uma psicóloga juntos numa mesa com um mentor mediando as trocas, experiência com poucas chances de se materializar ao acaso.

 

Isso dá certo? Segundo Carol, sim, porque a economia criativa depende exatamente de romper com padrões fixos para os modelos de negócio. A troca multidisciplinar rompe com fronteiras que costumam amarrar os projetos aos modelos já existentes, em tese já desgastados.

 

Outro aspecto destacado pela designer de formação é o de essa experiência investir no caráter dialógico e colaborativo, e menos comercial, das trocas. A criatividade que surge dos encontros acaba abrindo espaço para que as tecnologias disponíveis sejam compartilhadas, gerando um ambiente menos concorrencial, em que os ganhos são maiores para todos.

 

As conversas costumam durar apenas 30 minutos, tempo suficiente para os “mentorados” (participantes) descubram se aquele assunto é aquilo de que necessitam. Sábado e domingo, a Napkin promoveu mentorias em startups, expansão de contas, direito, imagem pessoal e styling, design de negócios, design/cultura e design/educação.

 

A 2ª edição do Mercado teve como tema orientador o de “Brasília, cidade design”, a propósito de a capital passar a integrar recentemente a Rede de Cidades Criativas da Unesco.

 

Se design foi uma palavra-chave no evento, outras foram coworking e coaching. A designer Nara Oliveira, da Coworking Gunga, por exemplo, explicou que sua empresa anunciava coaching em pílulas, com conteúdos de marketing digital, design de moda, coaching para artistas e coletivos, acessibilidade de eventos, agenciamento de artistas com necessidades especiais, assessoria de comunicação para movimentos culturais populares, produção de vídeos institucionais e captação de recursos. O foco fica nas possibilidades da economia local. “Não podemos depender apenas de editais. Bom que existam, mas temos de ampliar os negócios”.

 

A performer, palhaça, atriz e produtora Tina Carvalho diz ter saído renovada do encontro. “Precisamos de mais iniciativas como essa. Me fez refletir sobre o meu modelo de negócio, meu visual, o investimento na minha marca. Para quem já pensava em desistir do negócio e fazer outra coisa da vida, esse encontro me deu novo ânimo”. Ela tem uma empresa de teatro que há 15 anos está no mercado e sabe das dificuldades de viver apenas de fomento público.

 

O Sebrae-DF mandou representante para a “Arena de Soluções: mecanismos de fomento para empreendedores criativos”. O consultor João Froes, especialista em startups e soluções para empresas da economia criativa, explicou que o sucesso mora um pouco além de uma boa ideia. “Boa ideia é fundamental, mas planejamento de qualidade e recursos para investir também. Muitos empreendedores fracassam porque se esquecem de que seus negócios precisam oferecer soluções que sejam validadas pelo mercado. Nós podemos ajudar nesse sentido”.

 

Segundo Froes, a economia criativa de Brasília briga hoje pela parte de cima da tabela, ao lado de Rio e SP e atrás de Florianópolis no topo do ranking, com Minas mandando bem em segundo lugar. E a capital federal promete, na visão do consultor: “Brasília tem crescido muito como mercado inovador, como atestam as experiências do Biotic e do Parque Tecnológico de Alphaville. A terceira edição do Campus Party, este ano, também é prova da força da capital nessa área”.

 

O crescimento da economia criativa no DF também é atestada por um dos curadores do evento Gustavo Vidigal. Ele entende que a 2ª edição do Mercado Território Criativo detectou que já há tecnologias mais adequadas para integrar o ecossistema local, com metodologias criativas, empreendedores mais qualificados e com capacidade de ajudar a fazer inclusive a curadoria da iniciativa. E, muito importante, em número crescente são “prata da casa”.

 

A fala de Vidigal fica atestada pela ousadia, por exemplo, da empresa Tree House Studios, dona de um projeto, apoiado pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC), de “universo expandido”. Trocando em miúdos, a empresa do brasiliense Márcio Moraes tem um projeto multimídia que envolve filme, animação, jogos, HQs e licenciamento de produtos. Eles montaram uma instalação para atrair investidores para o projeto de R$ 10 milhões.

 

“O FAC foi o pontapé inicial para a gente conseguir mais recursos”, diz o empresário. A House recebeu R$ 990 mil da SEC, conseguiu, em função disso, R$ 2 milhões do FSA e atraiu a atenção da gigante Universal com uma premiação em créditos para uso em tecnologia de estúdios e recursos de dublagem da multinacional. Usando uma capa preta, que faz alusão a uma história fantástica que busca seguir os passos de “Game of Thrones”, Moraes flerta com o mercado internacional. “E nosso produto é 100% Brasília”, pisca ao fazer a observação.

 

Na “Desconferência: Design e Cultura – como o design agrega valor para bens e serviços culturais”, Gisela Schulzinger, designer, consultora e professora de SP, lembra que Netflix é uma produtora de conteúdo que subverteu valores de Hollywood e por isso vai montanha acima na trilha do sucesso. “Eles valorizam produtores locais e suas cadeias de valores”. Com outras panelistas, Schulzinger alerta que o capitalismo global está mal das pernas e vem algo aí que está disfarçado em economia criativa. Por isso, ela advoga quebra de paradigmas consagrados e a busca pela inovação.

 

Antes dela, Ana Brum destacou que o consumidor nos dias de hoje não quer apenas um bom produto. “Ele quer valor, uma boa história por trás, uma comunidade que se beneficie disso”, diz ela. Coisas como igualdade de gênero, trabalho digno, inovação, sustentabilidade e parceria, entre outros atributos, definem “para onde vão os mesmos R$ 50 que estamos dispostos a gastar para adquirir algo”.

 

A chuva dava trégua e a noite do domingo já tinha caído quando as pessoas, ainda atordoadas pela cachoeira de ideias, foram surpreendidas com experimentações. O palhaço Trevolino convidava os presentes a doar uma flor a uma desconhecida, o pessoal do Parque de Diversom tirava sons de canos PVC, e o público era incentivado a experimentações de marca e a se expor a territórios afetivos. No palco, noite já feita, o show “Made In Brasília – Musimix”, com Daniela Firme, Georgia W Alô e Beatriz Águida, não deixava dúvida de que o evento era local. O Cine Fusca prometia “exibições ao ar livre” no ar úmido lá de fora. Economia criativa é para os fortes.

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